Copa do Mundo 2026: Katia Rubio da USP Analisa o Distanciamento da Performance Atlética e a Urgência de Humanizar o Atleta para Resgatar a Emoção do Esporte

A Copa do Mundo de 2026, que já cumpre seu primeiro quarto, se consolida como um espetáculo fatiado, onde o entretenimento e narrativas paralelas muitas vezes ofuscam a essência da competição. É o que aponta Katia Rubio, professora sênior da Faculdade de Educação da USP, ao analisar as tendências de uma Copa que, segundo ela, corre o risco de ser uma das menos emocionantes do último século. A razão? Um distanciamento progressivo da performance de atletas, em detrimento de detalhes sórdidos da vida privada dos protagonistas e de seus familiares.

O Arquétipo do Herói e a Divinização do Humano

Para Rubio, o esporte é um dos poucos fenômenos contemporâneos que permite a vivência do arquétipo do herói, fundamental para o psiquismo humano, conforme a teoria junguiana. É através dele que se alcança uma espécie de transcendência ou imortalidade. Jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé não cativam apenas por sua fama ou rendimentos, mas porque suas atuações excedem a média, materializando a “divinização do humano” pelos pés. É a capacidade de realizar gestos técnicos quase impossíveis para a maioria que faz nações inteiras pararem, não mais por meras identidades nacionais ou como “ópio do povo”, mas pela complexa lógica que move o esporte contemporâneo.

A Incomum Realidade dos Atletas de Elite

A vida de um atleta de elite é de exigências extremas e pouco comuns. Sobreviver a um ciclo de quatro anos, submetendo corpos finitos e falíveis a um regime de treinamento e competição incessante, é um feito por si só. O peso simbólico da camisa, o risco permanente de lesões que podem encerrar carreiras, a pressão por resultados imediatos, a exposição constante ao julgamento público, a busca incessante pela perfeição em uma atividade sujeita ao erro e a experiência recorrente da derrota são apenas algumas das demandas diárias. Anos de preparação podem ser definidos em segundos, moldando o destino de uma carreira.

Luz e Sombra: A Vulnerabilidade por Trás da Performance

A condição humana dos atletas é um jogo constante de luz e sombra. Enquanto Vini Jr. celebra gols e assistências, afirmando sua condição “solar”, um Rafinha, por exemplo, experimenta a “sombra” da incerteza de uma lesão que pode tirá-lo da competição. Esses momentos expõem aspectos fundamentais da existência humana: a vulnerabilidade, o medo, a dúvida, a tristeza e o sofrimento. Humanizar o atleta, portanto, significa ir além da excelência esportiva e reconhecer que, mesmo os maiores talentos, convivem com limitações, conflitos e fragilidades. É abandonar a visão simplista que reduz o indivíduo a seus resultados e abraçar a complexidade de sua existência dentro e fora dos gramados.

O Risco do Distanciamento: Resgatando a Essência do Esporte

A substituição da identificação do torcedor com as habilidades dos atletas por questões banais extracampo e extrajogo representa um risco enorme para o esporte e para a humanidade. Perder a capacidade de consagrar atuações que provocam rompantes físicos e emocionais nos espectadores seria um prejuízo imenso. Atletas, como poucos outros profissionais, materializam a divinização do humano. Reafirmar que o esporte sem atletas é apenas uma abstração é crucial. A humanização desse fenômeno se dá com a presença dos jogadores que provam suas existências por meio de habilidades incomuns e que inspiram e emocionam. O afastamento do humano em campeonatos como o atual, invadido por interesses de outra ordem, pode ser a razão maior para o desinteresse e até a torcida contra de tantos. É tempo de resgatar a paixão pela performance humana no centro do espetáculo esportivo.

Fonte: jornal.usp.br

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