Concentração de Terras no Centro-Oeste: Estudo da USP Revela Desafios da Agricultura Familiar e a Chave para Sua Mesa

Uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Saúde Pública da USP, em colaboração com o Grupo de Estudos e Intervenções em Sistemas Alimentares (Geias) e o Núcleo Sustentarea, com o apoio da Fapesp, investigou a distribuição da agricultura familiar em 466 municípios do Centro-Oeste brasileiro. A região, conhecida pela alta concentração de terras e pelo predomínio de grandes monoculturas, como a soja, apresenta desafios históricos para a permanência e o desenvolvimento dos pequenos produtores rurais.

A Importância Estratégica da Agricultura Familiar

A agricultura familiar é um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável e a garantia da segurança alimentar no Brasil. Segundo Lucas Moura, professor do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP e responsável pelo estudo, são esses produtores que abastecem grande parte da mesa dos brasileiros com alimentos essenciais, como feijão, mandioca, hortaliças e frutas.

Concentração Fundiária Reduz Espaço para Pequenos Produtores

Um dos achados mais relevantes da pesquisa foi a correlação direta entre a maior concentração fundiária e a menor presença da agricultura familiar. Em outras palavras, municípios onde predominam grandes propriedades rurais tendem a oferecer menos oportunidades e espaço para a produção dos pequenos agricultores.

Lucas Moura esclarece que o problema não reside na produção de soja em si, mas no modelo histórico de ocupação territorial. “Entre alguns fatores, podemos destacar as políticas de ocupação do Centro-Oeste desde a década de 1970, que favoreceram a presença das grandes propriedades rurais e a adoção de um modelo baseado na Revolução Verde, com mecanização intensiva concentrada nas mãos de grandes produtores. Além disso, a expansão dessas monoculturas é voltada principalmente à exportação e, muitas vezes, à produção de subprodutos, e não de alimentos que compõem a dieta da população brasileira”, explica o professor.

Impacto na Diversidade e Preço dos Alimentos

Essa configuração territorial tem um impacto direto na oferta de alimentos para o consumo interno. Embora o consumidor nem sempre perceba essa conexão, a concentração de terras influencia a disponibilidade, a diversidade e até mesmo os preços dos alimentos nos supermercados. Além da competição por áreas produtivas, a agricultura familiar enfrenta barreiras significativas no acesso a crédito rural, assistência técnica e políticas públicas de incentivo.

Coexistência: Um Caminho para a Sustentabilidade

Os pesquisadores enfatizam que o objetivo do estudo não é advogar pela substituição de um modelo produtivo por outro. A principal conclusão é que o desenvolvimento do agronegócio pode coexistir com o fortalecimento da agricultura familiar. Para isso, são essenciais um planejamento territorial eficiente e políticas públicas que visem reduzir as desigualdades no acesso à terra e aos recursos produtivos.

Para os autores, ampliar o apoio aos pequenos produtores é uma estratégia crucial para promover sistemas alimentares mais sustentáveis, fortalecer a segurança alimentar do país e garantir maior diversidade de alimentos à população, sem comprometer o desenvolvimento econômico da região.

Fonte: jornal.usp.br

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