A coluna Bibliomania, apresentada pela professora Marisa Midori na Rádio USP, dedicou sua edição mais recente a uma verdadeira joia literária: ‘Mendel, o Livreiro’, do renomado autor austríaco Stefan Zweig. A novela, que acaba de ser relançada pela editora curitibana Arte e Letra em uma edição primorosa, transporta o leitor para a Viena do início da Primeira Guerra Mundial, explorando a vida de um personagem inesquecível e a fragilidade da memória humana diante do caos.
Jakob Mendel: O Catálogo Humano de Viena
No coração da trama está Jakob Mendel, um alfarrabista judeu galiciano, descrito como maltrapilho e excêntrico. Seu universo era o Café Gluck, onde passava os dias absorto em livros, catalogando-os com uma memória prodigiosa. Mendel conhecia cada detalhe: título, autor, editora, data de publicação, preço e, crucialmente, onde encontrar exemplares raros. Ele era, em essência, um catálogo ambulante, capaz de vociferar contra bibliotecários displicentes e de exibir um conhecimento enciclopédico que maravilhava professores e estudantes universitários. Sua existência era um testamento à paixão pelos livros, um mundo autossuficiente e aparentemente imune às intempéries externas.
A Guerra e o Colapso de um Mundo
A narrativa se desenrola no turbulento período do início da Primeira Guerra Mundial. De origem russo-polonesa, Mendel, em sua imersão literária, permanece alheio aos perigos que o cercam. Sua dedicação exclusiva aos livros o impede de perceber as mudanças drásticas no cenário político e social. Essa desconexão com a realidade o leva a ser classificado como inimigo do Estado, resultando em sua prisão em um campo de prisioneiros. É somente então que o alfarrabista percebe que seu mundo, até então seguro e delimitado pelos livros e pelo Café Gluck, desmoronou violentamente, arrastando consigo não apenas sua liberdade, mas também a própria essência de sua identidade.
O Papel Central da Memória
A professora Marisa Midori ressalta o papel crucial da memória na novela. O narrador, um jovem estudante que retorna ao café dez anos após o início da guerra, tenta reconstruir a ligação com o livreiro e o estabelecimento já transformado. Mais impactante ainda é a memória do próprio Mendel, antes tão vívida e uma extensão dos livros, que se vê fragmentada e alterada após o trauma da guerra. A novela explora como essa perda de vínculo com um passado abruptamente rompido se reflete na memória do livreiro e, por extensão, na própria Viena, que jamais seria a mesma. É uma reflexão profunda sobre como eventos históricos podem não apenas mudar paisagens, mas também reconfigurar a mente humana.
Bibliomania: Um Convite à Leitura
A análise de Marisa Midori em ‘Bibliomania’ oferece uma perspectiva profunda sobre a obra de Zweig, convidando à reflexão sobre a fragilidade da memória e o impacto dos grandes conflitos na vida individual. A coluna ‘Bibliomania’ é transmitida quinzenalmente às sextas-feiras, às 9h00, pela Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), sendo uma produção conjunta da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP, e um excelente ponto de partida para explorar joias literárias como ‘Mendel, o Livreiro’ e outros clássicos que enriquecem a cultura e o conhecimento.
Fonte: jornal.usp.br
