Colóquio Internacional Gratuito na USP Desvenda a ‘Porosidade’ e Intermidialidade na Obra de Marguerite Duras

“Muito cedo, na minha vida, ficou tarde demais. Quando eu tinha 18 anos já era tarde demais. Entre 18 e 25 anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos 18 anos envelheci (…). Esse envelhecimento foi brutal”, escreveu a romancista francesa Marguerite Duras (1914-1996), uma voz que marcou a literatura do século 20 com uma perspectiva feminina raras vezes vista antes. Para aprofundar o conhecimento sobre a vida e o impacto histórico da autora na literatura, no cinema e no teatro, o Centro MariAntonia da USP promoverá, entre os dias 18 e 20 deste mês, o Colóquio Internacional Marguerite Duras: Porosidade e Intermidialidade, com entrada gratuita. A programação completa está disponível no site do Centro MariAntonia.

A Visão Multifacetada de Duras

O professor Maurício Ayer, um dos organizadores do colóquio, explicou ao Jornal da USP que a obra de Marguerite Duras é permeada por temas como a sexualidade feminina, os traumas coloniais, a experiência materna, a violência, a criança, o crime – e o que há de inexplicável e perturbadoramente humano em criminosos – além da própria experiência do escrever e da percepção da memória e do esquecimento. “Creio que Duras abriu um vasto campo para a investigação das relações entre amor e loucura, violência e poder, de uma maneira muito direta e sem intermediações morais, e ao mesmo tempo trabalhando profundamente a questão de como escrever esses temas, que tornou sua obra um manancial infinito de leituras.”

Infância na Indochina e Obras Essenciais

Com um texto visceralmente autobiográfico, Duras foi profundamente influenciada por sua infância na Indochina (atual Vietnã), marcada pela morte precoce do pai e pelas dificuldades da mãe em sustentar os três filhos. Essa experiência se reflete em suas obras, que misturam Oriente e Ocidente, palavra e vazio, amor e morte. Ayer, que é doutor em Língua e Literatura Francesa pela USP e professor da Universidade de Brasília (UnB), destaca algumas de suas obras mais importantes: “Entre as obras dela, eu destacaria Uma Barragem contra o Pacífico, seu primeiro romance importante, publicado em 1950, Cinema Éden, peça de teatro de 1977, e O Amante, seu romance mais conhecido, de 1984.”

A ‘Porosidade’ como Conceito Central

A palavra “porosidade”, presente no título do colóquio, é um conceito fundamental na escrita de Marguerite Duras. Segundo Maurício Ayer, Duras entendia que escrever é se colocar em um estado de abertura, de porosidade, em relação ao mundo, aos outros e a si mesma. Esse estado implica uma receptividade ao que vem de dentro – palavras, pensamentos, impressões – sem criar barreiras morais ou estéticas. “Se você vigia a sua escrita, isso é a morte para o escritor”, afirma Ayer. A “porosidade” também se estende à intermidialidade, onde sua literatura se comunica com o cinema, a fotografia e a música, enquanto seu cinema dialoga com o teatro e a poesia. “Ela acredita que todas as coisas se comunicam e que cabe a uma autora como ela estar aberta a testemunhar isso e colocar no papel”, completa o professor, enfatizando a relevância dessa porosidade radical para a criação em todas as dimensões de sua atividade.

Para Duras, acessar esse estado de “absorção” do exterior pela “porosidade” requer silenciar referências culturais impostas e “ouvir” as coisas e os lugares. Ayer observa que, a partir daí, ela desenvolve uma linguagem “esburacada”, cheia de atravessamentos, vazios e faltas, aproximando sua escrita da oralidade. Há um paradoxo intencional em seu vocabulário, com “palavras que machucam como pedras angulosas”, contrastando com uma linguagem fragmentada, sem um discurso linear.

Reencantamento do Mundo e Interdisciplinaridade

A “porosidade” durasiana oferece ao leitor contemporâneo uma espécie de “reencantamento do mundo”, na visão da professora Maria Luiza Berwanger, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela fará a conferência “Poética da Porosidade em Marguerite Duras, entre Literatura e Filosofia” no dia 18, segunda-feira, às 17h20. Berwanger aponta que essa perspectiva de reencantamento, mesmo que involuntária, faz a poética de Duras se transferir para outros textos, “como se dizer ‘porosidade’ equivalesse a dizer interdisciplinaridade e produção de um texto novo”.

O Colóquio Internacional Marguerite Duras ocorrerá nos dias 18, 19 e 20 de maio, sempre a partir das 9 horas, no Centro MariAntonia da USP, localizado na Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, em São Paulo (próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). A entrada é gratuita e não é necessário fazer inscrição. Mais informações e a programação completa do evento estão disponíveis no site do Centro MariAntonia.

Fonte: jornal.usp.br

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