Brasil na Geopolítica das Commodities: Por Que a Riqueza Natural Não Traz Prosperidade e a Urgência de uma Política Industrial

Brasil na Geopolítica das Commodities: Por Que a Riqueza Natural Não Traz Prosperidade e a Urgência de uma Política Industrial

Apesar de ser potência em recursos naturais, o país falha em agregar valor, perdendo protagonismo global e a chance de transformar sua riqueza em desenvolvimento socioeconômico, segundo o professor Paulo Feldmann.

A definição de poder global passou por uma significativa transformação neste século 21. Enquanto antes predominava uma visão militar e bélica, autores contemporâneos como Michael Klare e Daniel Yergin redefiniram o conceito para adaptá-lo aos conflitos atuais, que são cada vez mais motivados por recursos naturais estratégicos, cadeias produtivas e disputas tecnológicas. Nesse novo cenário, o Brasil, antes periférico, emerge como um país estratégico, graças à sua imensa riqueza em recursos naturais.

O fato é que a geopolítica sempre tratou de poder, mas agora, ser rico em commodities significa ser poderoso. É nesse contexto que o termo ‘geopolítica das commodities’ ganha destaque. O Brasil é abundantemente dotado de commodities agrícolas, energéticas e minerais, tornando-se protagonista em quase tudo o que hoje define o poder global.

O Gargalo da Agregação de Valor

Apesar de sua posição privilegiada, o Brasil ainda não avançou como um país de destaque, capaz de oferecer boas condições de vida, renda e salários dignos a toda a sua população. O principal problema reside na incapacidade de agregar valor às suas commodities, perdendo a oportunidade de obter receitas muito maiores no mercado internacional.

Exemplos dessa deficiência são abundantes:

  • Suco de Laranja: O Brasil é o maior exportador mundial, mas foca na exportação do produto concentrado a granel. A distribuição final e a imposição de marca no mercado, como o norte-americano, ficam a cargo de empresas locais, que embolsam a maior parte do valor agregado.
  • Energia Solar: Embora possua uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, 95% dos painéis fotovoltaicos usados no país são importados da China há mais de uma década, quando poderiam ser fabricados localmente.
  • Energia Eólica: As turbinas são fabricadas no Brasil, mas predominantemente por empresas estrangeiras, com pouquíssima participação de capital nacional. Não há uma política de exigência de transferência de tecnologia, como a China faz.
  • Mineração (Terras Raras): O país detém 23% das reservas mundiais, mas não possui a capacidade de extração e refino dessas matérias-primas cruciais, deixando essa tarefa para a China, que realiza a maior agregação de valor.

A Urgência de uma Política Industrial

Em resumo, o Brasil está na era da geopolítica das commodities, possuindo boa parte dos produtos que o mundo precisa. No entanto, por falta de uma visão estratégica e de um plano de futuro para os próximos 10 ou 15 anos, o país não assume um papel protagonista. Não há um plano, ele simplesmente não existe.

É imperativo que o Brasil deixe de ser um mero fornecedor de commodities em estado bruto para se transformar em um fabricante de bens valiosos, assim como a China. Isso demanda uma política industrial robusta e bem definida. A crença de que o mercado resolverá tudo por si só é um equívoco, pois, historicamente, o mercado dificilmente atua a favor dos países que não investem em sua própria capacidade produtiva e tecnológica.

Fonte: jornal.usp.br

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