Biopolímeros, macromoléculas naturais produzidas por organismos vivos, têm ganhado destaque na indústria cosmética como alternativas sustentáveis aos polímeros sintéticos tradicionais. Na vanguarda dessa inovação, pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP desenvolveram e testaram um composto natural inédito, derivado da tara (Caesalpinia spinosa) e da alga vermelha (Kappaphycus alvarezii), que promete transformar o cuidado capilar. Os resultados dos estudos indicam que essa formulação não apenas melhora a hidratação dos fios, mas também forma uma camada protetora essencial contra agressores externos.
A pesquisa demonstrou o potencial filmógeno do biopolímero, ou seja, sua capacidade de criar uma película contínua na superfície do cabelo. Essa barreira protetora se traduz em benefícios visíveis, como aumento do brilho, maior maciez e facilidade para pentear, oferecendo uma solução promissora para a saúde e beleza dos cabelos.
A Descoberta da USP: Biopolímero de Tara e Alga Vermelha
A ideia de explorar os efeitos da tara, um fruto de arbusto florido nativo da América Latina, e da alga vermelha surgiu de trabalhos prévios do grupo de pesquisa da USP. Coordenado pela professora Patrícia Maia Campos, da FCFRP, e com a participação de Rafaela Zito, aluna de graduação em Farmácia e bolsista do Núcleo de Estudos Avançados em Tecnologia de Cosméticos (Neatec), a equipe já havia desenvolvido um gel com um biopolímero similar para aplicação na pele. Esse produto formou uma barreira protetora com efeito tensor imediato e propriedades hidratantes, induzindo a produção de colágeno.
A novidade, conforme explica Rafaela Zito, reside na aplicação dessa formulação específica no cabelo. Embora a capacidade filmógena dos biopolímeros seja amplamente estudada, a utilização dessa combinação de tara e alga vermelha em produtos capilares é inédita, abrindo caminho para novas abordagens no tratamento dos fios.
Metodologia e Resultados Promissores
Para avaliar a eficácia do composto, a equipe incorporou o biopolímero em formulações de shampoo, condicionador e leave-in, todos desenvolvidos pelo próprio grupo. O estudo de eficácia utilizou três mechas de cabelo: uma não tratada (controle), outra tratada com formulações sem o biopolímero e uma terceira com as formulações contendo o composto natural. As mechas foram submetidas a um rigoroso protocolo de higienização e tratamento, replicado três vezes para simular o uso contínuo dos produtos.
Os resultados foram notavelmente positivos. A professora Patrícia Maia Campos destacou que as mechas tratadas com o biopolímero apresentaram um aumento no diâmetro da espessura do fio, indicando o depósito do filme protetor. Além disso, houve uma melhora significativa na maciez, brilho e regularidade dos fios. Quantitativamente, as formulações com biopolímero demonstraram uma redução da área de histerese (magnetismo) em 48,17% para o condicionador e impressionantes 88,09% para o leave-in. O brilho melhorou em 29,42% e a maciez em 21,84%.
Mecanismo de Ação Duplo e Vantagens
Um dos grandes diferenciais desse biopolímero é sua dupla funcionalidade: além de formar um filme protetor, ele também atua como um potente hidratante. Ao contrário de outros biopolímeros já presentes no mercado, como a queratina, que podem causar rigidez nos fios com o uso frequente, a combinação das galactanas da tara e das galactomananas sulfatadas da alga vermelha cria uma rede por ligação de hidrogênio. “Esses polissacarídeos específicos têm em si a propriedade hidratante. No entanto, os dois linkados conseguem formar essa rede, destacando seu mecanismo duplo, tanto de filmógeno quanto de hidratante”, detalha Maia Campos.
Essa formulação apresenta ainda outras vantagens, como uma ampla faixa de pH aceita, tornando-a segura e funcional em diferentes níveis de acidez ou alcalinidade, e alta compatibilidade com diversas formulações cosméticas. Embora o biopolímero possa reduzir a resistência à tração para pentear os fios – um efeito que pode ser associado ao aumento do diâmetro da fibra e à quebra de ligações de hidrogênio naturais –, a formação do filme protetor compensa amplamente, protegendo o cabelo. Testes de estresse térmico, simulando o uso de secador ou chapinha, não revelaram alterações na cor, odor ou homogeneidade das mechas tratadas.
Próximos Passos e Reconhecimento Internacional
Com um grande potencial para aprimoramento e adaptação à produção em larga escala, a pesquisa desenvolvida no Núcleo de Estudos da USP em Ribeirão Preto já conquistou reconhecimento internacional. Rafaela Zito, a pesquisadora à frente do estudo, recebeu avaliação favorável de especialistas para iniciar seu doutorado logo após a conclusão da graduação, um testemunho do impacto e da qualidade do trabalho.
Ainda há etapas a serem cumpridas, como o refinamento dos produtos para melhorar a homogeneidade do filme e avaliar o efeito a longo prazo da aplicação. Futuramente, serão necessários estudos in vivo e a consideração de outros fatores que contribuem para a experiência do consumidor final. A pesquisa contou com o apoio financeiro de importantes instituições como Capes, Fapesp, CNPq e Pibic, e o artigo intitulado Tara and Red Algae Biopolymer as a Film-Forming Substance for Hair Protection foi publicado na renomada revista ACS Omega.
Fonte: jornal.usp.br
