A agricultura moderna enfrenta um dilema: a necessidade de alta produtividade versus o impacto ambiental da dependência de insumos químicos sintéticos. Um diagnóstico da Cátedra Josué de Castro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aponta para uma “tríplice monotonia” no sistema agroalimentar, marcada pela homogeneização dos sistemas agrícolas. Contudo, uma alternativa promissora tem ganhado destaque: os bioinsumos, tecnologias de origem biológica que oferecem benefícios ambientais, produtivos e econômicos.
O que são e como funcionam os bioinsumos?
Frédéric Goulet, pesquisador do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad) e parceiro da Cátedra, explica que os bioinsumos são tecnologias de origem biológica empregadas na produção agrícola. Eles se dividem em três subfamílias principais:
- Biofertilizantes: Enriquecem o solo com nutrientes, desempenhando funções de fertilização e podendo substituir os fertilizantes químicos.
- Controle biológico: Atuam na sanidade vegetal, defendendo as plantas contra doenças e combatendo parasitas, de forma similar aos pesticidas químicos.
- Bioestimulantes: Otimizam o metabolismo da planta, melhorando a absorção de nutrientes e a tolerância a estresses ambientais.
Esses produtos podem ser compostos por diversas substâncias, como extratos vegetais, macroorganismos (insetos) ou, cada vez mais, microrganismos como bactérias e fungos.
Ganhos ambientais e produtivos da tecnologia biológica
A substituição de insumos químicos sintéticos por bioinsumos traz contribuições significativas para o meio ambiente. A principal delas é a redução do uso de fertilizantes nitrogenados e pesticidas, que são grandes poluidores de aquíferos, prejudiciais à biodiversidade e à saúde humana, além de serem responsáveis por consideráveis emissões de gases de efeito estufa em sua produção. Do ponto de vista produtivo, os bioinsumos oferecem soluções eficazes para estimular processos naturais benéficos, tanto para a produção vegetal quanto animal, otimizando o desenvolvimento das culturas de forma mais natural e sustentável.
Vantagens econômicas: autonomia e rentabilidade para o produtor
Além dos benefícios ambientais e produtivos, os bioinsumos apresentam um plano econômico vantajoso. Eles podem permitir a relocalização de certas atividades de produção de insumos agrícolas, reduzindo a dependência de importações de países estrangeiros, especialmente de fertilizantes nitrogenados, que são caros. Quando produzidos na própria fazenda, os bioinsumos possibilitam que os agricultores acessem esses insumos a custos mais baixos, aumentando suas margens econômicas e fortalecendo a autonomia do produtor rural.
Superando os desafios para a expansão dos bioinsumos
Apesar de seu vasto potencial, a ampliação do uso de bioinsumos enfrenta desafios. Goulet ressalta a importância de uma abordagem de complementaridade entre tecnologias biológicas e químicas, em vez de uma substituição total, visto como uma transição tecnológica de longo prazo. Os principais obstáculos incluem:
- Disponibilização em larga escala: A natureza biológica dos bioinsumos apresenta desafios logísticos para atender tanto grandes quanto pequenos produtores.
- Convencimento dos agricultores: A eficácia dos bioinsumos, embora real, pode ser menos “espetacular” em comparação com a dos insumos químicos, exigindo maior convencimento.
- Capacitação profissional: É fundamental capacitar todos os profissionais do setor agrícola – da extensão rural aos agrônomos – sobre a importância e o uso adequado dessas tecnologias.
Apesar dos desafios, o avanço e a adoção dos bioinsumos representam um caminho promissor para uma agricultura mais sustentável, resiliente e economicamente viável, alinhada com as demandas por alimentos saudáveis e proteção ambiental.
Fonte: jornal.usp.br
