Autismo em Idosos: Pesquisa Americana Revela Aumento Expressivo de Diagnósticos Após os 70 Anos e Projeção de Dobrar Casos Até 2040
Estudo publicado na prestigiada revista ‘Nature’ aponta um salto de quase três vezes no número de autistas com mais de 70 anos desde 1990; especialistas da USP explicam os desafios do diagnóstico tardio e o alívio que a confirmação pode trazer na velhice.
O número de idosos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem crescido de forma significativa, segundo uma pesquisa americana divulgada na revista ‘Nature’. Estima-se que a população autista com mais de 70 anos, que era de 894.700 em 1990, atingiu quase 2,5 milhões em 2021. A projeção é que esse número continue em ascensão, podendo dobrar para 5,1 milhões de pessoas até 2040.
Embora o diagnóstico do TEA seja mais comum na infância, um número crescente de adultos e idosos tem recebido a confirmação em fases avançadas da vida, mesmo sem histórico de acompanhamento médico na juventude. Esse fenômeno levanta questões importantes sobre a identificação e o suporte necessários para essa parcela da população.
O Desafio do Diagnóstico Tardio
Patrícia Beltrão Braga, professora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, explica que o diagnóstico do autismo é fundamentalmente clínico, sem a existência de biomarcadores específicos. “Quando ele é diagnosticado em uma pessoa adulta ou em uma pessoa idosa, é porque ele não foi identificado anteriormente. A pessoa nasce autista, você faz o diagnóstico durante o neurodesenvolvimento e, em geral, os casos mais leves são mais difíceis de serem diagnosticados porque têm menos sintomas do quadro”, detalha a especialista.
Ela aponta que, em muitos casos, o comportamento autista sempre esteve presente, mas não chamava atenção. Um exemplo são mulheres com autismo de nível de suporte 1 (o mais leve), que frequentemente enfrentam maiores dificuldades para serem diagnosticadas mais tarde, pois a sociedade muitas vezes interpreta sua sociabilidade comprometida como algo “natural da mulher”.
Comorbidades e o Alívio do Entendimento
A professora Patrícia Beltrão Braga também ressalta que algumas comorbidades frequentemente associadas ao autismo podem ser erroneamente diagnosticadas como transtornos isolados. “Um exemplo seria uma pessoa ansiosa, ela tem o diagnóstico de transtorno de ansiedade e, na verdade, isso é uma comorbidade do autismo. Essa pessoa tem autismo e foi visto como ansiedade”, explica.
Ao buscar um especialista e receber o diagnóstico tardio, muitos indivíduos experimentam um profundo alívio. “A pessoa tem um diagnóstico de autismo e vai olhando para trás da vida dela e pensa ‘então por isso que eu fazia isso, por isso que eu era assim’ e, para muitas dessas pessoas, acaba sendo um alívio, porque você se entende, você consegue se explicar dentro da sociedade”, afirma Patrícia.
Persistência do Estigma e Avanço Diagnóstico
Apesar do aumento nos diagnósticos entre pessoas mais velhas e da crescente conscientização, o autismo ainda carrega um forte estigma social. “Não acho que o autismo esteja deixando de ser um estigma, infelizmente. Acredito que ainda pode ter uma variação de acordo com a região, mas você ainda vê pessoas usando autismo como xingamento, chamando o outro de autista, o que é um absurdo”, lamenta a professora da USP.
Ela conclui que o recente aumento no número de diagnósticos está mais relacionado à melhoria na capacidade de identificação do transtorno, à maior conscientização sobre suas manifestações e à procura por ajuda especializada, e não necessariamente a um aumento real na prevalência do autismo. Esse avanço na capacidade diagnóstica é crucial para garantir que mais pessoas recebam o suporte adequado, independentemente da idade.
Fonte: jornal.usp.br
