As vozes e a história do Coral da USP agora estão impressas em livro

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"title": "Uma História do Coralusp: Livro Inédito Mergulha nas Vozes e Lutas do Coral da USP em Quase Seis Décadas de Atividade",
"subtitle": "Lançada pela Edusp, a obra da historiadora Stella Maris Franco detalha a trajetória do grupo vocal, que nasceu na ditadura militar e se tornou referência cultural, educacional e política.",
"content_html": "<p>As vozes e a rica história do Coral da USP (Coralusp) ganham um registro permanente com o lançamento do livro “Uma História do Coralusp”, da historiadora e professora da USP Stella Maris Scatena Franco. Publicada pela Editora da USP (Edusp), a obra convida o leitor a uma imersão na trajetória de um dos grupos vocais mais longevos e influentes do Brasil, que se mantém em atividade ininterrupta há quase seis décadas.</p><p>O livro, fruto de uma pesquisa minuciosa que incluiu 20 entrevistas com integrantes e ex-integrantes, além da análise do vasto acervo do grupo, será lançado no próximo dia 23 de maio, sábado, às 19 horas, no Centro Cultural Camargo Guarnieri da USP, em São Paulo. O evento contará com um recital do Coralusp, seguido de uma conversa com a autora e sessão de autógrafos, com entrada gratuita.</p><p>Com 184 páginas, a publicação retoma a história do Coralusp desde suas origens, detalhando os desafios iniciais, as apresentações marcantes e as excursões internacionais que consolidaram sua reputação. Para Stella, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, os trechos selecionados das entrevistas “deram o tom e foram gerando uma melodia”, transformando-se em “notas encadeadas numa composição”.</p><h3>A Gênese de um Coral Resistente</h3><p>A ideia de fundar o Coralusp surgiu em 1966, da iniciativa de José Luiz Visconti, então estudante da Escola Politécnica da USP. Em um período de desmobilização estudantil devido à repressão da ditadura militar, Visconti buscava formas de engajar os alunos em atividades artísticas. “Um coral é um lugar onde bastante gente trabalha. Era uma forma de juntar as pessoas”, recordou ele em entrevista a Stella.</p><p>O desafio inicial foi equilibrar as vozes, já que a Politécnica era predominantemente masculina. A solução foi uma parceria com a Escola de Enfermagem, resultando no Coral Universitário Poli-Enfermagem. Para a regência, Visconti contou com a indicação de Damiano Cozzella, que sugeriu o nome de Benito Juarez, figura que se tornaria essencial para o grupo.</p><p>Apesar das dificuldades financeiras iniciais, com o Grêmio Politécnico enfrentando divisões políticas, a persistência de Visconti garantiu o pagamento do regente. A primeira convocação atraiu cerca de 100 candidatos, e a estreia pública ocorreu em 30 de setembro de 1967, no prédio do Biênio da Politécnica, com um repertório que já mesclava clássicos e canções populares de protesto, como "Aroeira", de Geraldo Vandré.</p><p>Para superar a falta de apoio financeiro, o coral demonstrou grande criatividade, produzindo e vendendo um compacto duplo, chaveiros e adesivos para arrecadar fundos. Foi somente durante a gestão do reitor Miguel Reale (1969-1973) que o Coralusp foi oficializado como um órgão da USP em 1971, garantindo remuneração e verba para sua manutenção e expansão.</p><p>Nascido em meio à ditadura militar, o Coralusp notabilizou-se por sua atuação resistente, muitas vezes de forma implícita. A inclusão de música popular brasileira, especialmente de artistas monitorados pelo regime, já era um ato de contrariedade. Visconti e Juarez, embora não filiados, tinham “clara simpatia” pela esquerda, o que, somado à composição estudantil do grupo, o colocava no radar do governo. Em 1968, durante a invasão do Crusp após o AI-5, o coral estava ensaiando no local e seus integrantes tiveram que se dispersar para evitar prisões.</p><p>O ecletismo provocador, introduzido por Juarez e Cozzella (que produziu mais de 300 arranjos), rompeu com os padrões tradicionais da música erudita, gerando inquietação e projetando o coral. Em momentos de pressão governamental, como a “intimação” para cantar no Palácio do Governo em 1975, o grupo manteve seus princípios, incluindo músicas de protesto no repertório. Sua atuação política culminou em participações históricas como no Comício das Diretas Já, em 1984, e nos eventos dos Caras-Pintadas, em 1992, demonstrando que “a música entoada pelos coralistas da USP extravasava os limites da arte e se conectava diretamente à política”, destaca Stella.</p><h3>Do Canto Amador à Escola de Música</h3><p>O Coralusp, apesar de ser um coral amador, sempre se destacou pela excelência. Stella Franco resgata o sentido original do termo “amador” — do latim <i>amator</i>, “aquele que ama intensamente” — para desmistificar a conotação negativa. Alberto Cunha, regente do Coralusp desde 1986, reforça que a motivação dos cantores é puramente o amor pela música.</p><p>Aceitando integrantes sem experiência prévia, o Coralusp se estabeleceu como uma verdadeira escola. Mauro Aulicino, regente do coral, afirma que o grupo “quis propiciar apuramento técnico aos seus cantores e montou uma estrutura que quase nenhum coral tem”. Sob o tripé da execução musical, performance e técnica vocal, defendido por Benito Juarez, os coralistas recebiam aulas gratuitas de percepção, harmonia, contraponto, história da música e, crucialmente, técnica vocal. Essa dedicação resultou em uma “excelência na interpretação das peças” que impressionava as audiências.</p><p>A rigidez e austeridade de Juarez, equilibradas por seu “lado humano, afável e divertido”, foram fundamentais para o alto nível de performance. Benito Juarez, que faleceu em 2020, foi uma figura central na projeção do coral nas décadas iniciais. Muitos alunos, como Ricardo Breim, que cursava Engenharia em 1974, mudaram suas carreiras para a música graças ao ambiente e às aulas oferecidas. “Existiam ali as condições mais favoráveis para que se fizesse essa escolha e para que se desenvolvesse uma visão da música como algo a ser tratado com seriedade”, relata Breim.</p><h3>A Conquista dos Palcos Mundiais</h3><p>O sucesso do Coralusp, segundo a autora, é uma combinação de “excelência artística, dedicação aos ensaios, a obstinação de um maestro, a determinação de um diretor executivo, a inventividade de um arranjador e o envolvimento de seus cantores”. Essa projeção foi impulsionada por memoráveis viagens internacionais na década de 1970.</p><p>Em 1972, o coral foi convidado para o Lincoln Center International Choral Festival, em Nova York. Um grupo de 40 cantores representou o Brasil, realizando concertos em Washington e participando do festival sob a direção artística de Robert Lawson Shaw. Essa viagem abriu portas para diversos convites e contatos com músicos internacionais.</p><p>A turnê europeia de 1973 foi um feito notável de Visconti, que viajou pelo continente para convencer autoridades musicais da qualidade do Coralusp, utilizando filmes da TV Cultura. O grupo, com 40 cantores, visitou 20 cidades em 13 países europeus, integrando a programação cultural da feira Brasil Export 73, em Bruxelas. Na Europa, o Coralusp ganhou o apelido de “coral da ONU” devido à sua diversidade étnica, refletindo a composição da USP na época. O retorno ao Brasil foi celebrado pela imprensa, consolidando sua imagem de sucesso.</p><p>A viagem internacional seguinte foi à África, em 1979, em um contexto de reaproximação diplomática do Brasil com o continente. Concebida como um intercâmbio cultural, a turnê, acompanhada pelo então reitor Waldyr Muniz Oliva, visitou Costa do Marfim, Gana, Togo e Nigéria. A viagem teve seu roteiro alterado devido a questões políticas, como a morte do presidente de Angola, Agostinho Neto, pouco antes da partida para o país.</p><h3>O Coralusp Hoje: Legado e Futuro</h3><p>Após anos de atividades no quarto andar do antigo prédio da Reitoria, o Coralusp enfrentou desafios com a mudança em 2009. O acervo de documentos e partituras, que antes tinha sala própria, foi transferido para locais precários, exposto a goteiras e pragas, antes de encontrar um lar definitivo no Favo 16 das Colmeias, na Cidade Universitária, em 2016.</p><p>Em 2022, o coral finalmente se instalou no Centro Cultural Camargo Guarnieri, compartilhando o espaço com a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp), o Cinema da USP (Cinusp) e o Teatro da USP (Tusp). Essa centralização resgata a atmosfera de integração e pertencimento que caracterizava suas antigas sedes.</p><p>Atualmente, o Coralusp é composto por 15 grupos, como Dona Yayá, Sestina e Feminino, regidos por sete maestros e totalizando 650 coralistas. As inscrições para participação acontecem no início de cada semestre, e a maioria dos grupos aceita integrantes sem experiência musical prévia, mantendo viva a tradição de ser um espaço de aprendizado e amor pela música.</p><p><strong>Serviço:</strong><br><strong>Livro:</strong> “Uma História do Coralusp”, de Stella Maris Scatena Franco, Editora da USP (Edusp), 184 páginas, R$ 48,00.<br><strong>Lançamento:</strong> 23 de maio, sábado, às 19 horas, no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo). Haverá recital do Coral da USP (Coralusp), seguido de conversa com a autora e sessão de autógrafos. Entrada gratuita, sem necessidade de inscrição.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br

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