A Revolução Verde da Saúde: Como Parques e Praças se Tornam o Novo Centro do Bem-Estar e Convivência Pós-Pandemia, Segundo Especialistas da USP

A busca por uma vida mais saudável e equilibrada tem levado um número crescente de brasileiros para fora das academias, transformando parques e praças em verdadeiros centros de saúde e convivência. Caminhadas, corridas, treinos funcionais e aulas coletivas ao ar livre se popularizam, oferecendo uma alternativa flexível e prazerosa para quem busca bem-estar, contato com a natureza e interação social.

Segundo Átila Alexandre Trapé, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, esse movimento reflete o desejo por atividades que proporcionem maior conforto e motivação. “Muitas pessoas se sentem mais confortáveis e mais motivadas para realizar a prática nesses ambientes abertos, com a possibilidade de interagir com outras pessoas e estar em contato com a natureza”, explica Trapé.

Embora a tendência de exercícios ao ar livre esteja em ascensão, o professor ressalta que a escolha do ambiente é pessoal e variada. Há quem prefira espaços fechados, climatizados e com horários definidos, enquanto outros se beneficiam da liberdade e flexibilidade que os ambientes abertos oferecem. O fundamental, segundo ele, é que cada indivíduo encontre o local que melhor se adapta às suas necessidades e preferências, contribuindo para a manutenção da regularidade na prática, o que é essencial para colher os benefícios a longo prazo.

Bem-Estar, Motivação e Conexão Social

A motivação para o exercício é um pilar central nesse processo. Trapé menciona que estudos da teoria da autodeterminação, aplicada também à atividade física, mostram que três necessidades psicológicas básicas influenciam diretamente o engajamento: autonomia (sentir-se no controle da própria prática), competência (sentir-se capaz de realizar a atividade) e relacionamento (sentir-se conectado a outras pessoas). Quando atendidas, essas necessidades impulsionam uma motivação intrínseca, fazendo com que a pessoa pratique a atividade por prazer, e não por obrigação.

Além dos benefícios físicos evidentes, a prática ao ar livre fortalece as relações sociais, um aspecto crucial em uma era de crescentes interações digitais e menor contato presencial. “A tecnologia trouxe muitos benefícios, mas também tem provocado um certo distanciamento social. Atividades ao ar livre criam oportunidades para que as pessoas estejam juntas, conversem e compartilhem experiências”, destaca Trapé. O cenário pós-pandemia, com o aumento do trabalho remoto e o maior tempo passado em ambientes fechados, também contribuiu para essa guinada, oferecendo uma válvula de escape para o equilíbrio da rotina e o contato vital com o ambiente externo e outras pessoas.

Desafios Urbanos e Acesso Democrático

Apesar do entusiasmo e dos múltiplos benefícios, a expansão do exercício ao ar livre enfrenta desafios significativos, principalmente na oferta e distribuição de espaços públicos adequados. Trapé aponta que parques e praças muitas vezes estão concentrados em regiões específicas das cidades, dificultando o acesso de grande parte da população. Em Ribeirão Preto, por exemplo, locais populares como os parques Curupira, Raya e Parque das Artes estão situados em áreas mais valorizadas do município.

“É importante pensar em políticas públicas que ampliem o acesso e promovam mais equidade”, afirma o professor, citando como exemplos positivos a criação de ciclovias e a revitalização de espaços públicos que incentivam a atividade física, como iniciativas que tornam as cidades mais propícias à prática e mais inclusivas.

Iniciativas Comunitárias Transformam a Prática

Paralelamente à infraestrutura pública, projetos independentes e comunitários têm surgido para preencher lacunas e incentivar a prática de exercícios fora do ambiente tradicional das academias. É o caso do “Zona Forte”, iniciativa criada em Ribeirão Preto pelos profissionais de educação física Gustavo Sant’Anna Fernandes de Oliveira, João Victor Neves, Lucas Fernandes e Malcon Rodriguês.

O projeto nasceu da observação de muitas pessoas treinando sozinhas em parques, sem orientação ou um senso de pertencimento a um grupo. “O projeto nasceu praticamente de uma corrida no parque. Fomos treinar e percebemos que há muitas pessoas treinando sozinhas, sem direção e sem pertencimento”, conta Oliveira. A partir dessa constatação, o grupo decidiu criar treinos abertos que incentivam tanto a prática física quanto a convivência entre os participantes. “A ideia foi trazer as pessoas para um ambiente aberto, com mais luz, mais interação e essa sensação de comunidade”, explica.

O “Zona Forte” promove treinos coletivos em parques e praças, sendo uma alternativa acessível para quem não se adapta ao ambiente de academia ou enfrenta barreiras financeiras. Os encontros reúnem perfis variados, desde quem já treina até quem está começando, com a filosofia de que "um ajude o outro e todos se sintam parte daquele grupo". Além dos ganhos físicos, a prática em grupo também impacta positivamente a saúde mental, ajudando a criar vínculos, amizades e a combater o estresse, a comparação excessiva e as dificuldades emocionais comuns na sociedade atual.

A Inegável Importância da Orientação Profissional

Apesar de todos os benefícios e da crescente popularidade, especialistas alertam para a necessidade de orientação adequada, especialmente quando os exercícios envolvem movimentos mais complexos ou exigem técnica específica. “O melhor cenário é realizar a prática de forma supervisionada por um profissional de educação física, que consegue orientar, corrigir movimentos e garantir que os exercícios sejam feitos de forma segura e eficaz”, enfatiza Trapé.

Na ausência de supervisão direta e contínua, a busca por orientações confiáveis e qualificadas é fundamental para evitar lesões e garantir que a prática seja benéfica. Enquanto atividades de baixo impacto ou meditação podem ser guiadas por aplicativos ou conteúdos online, exercícios físicos mais intensos ou complexos demandam um mínimo de acompanhamento ou instrução profissional para a execução correta. O objetivo final, conforme conclui Trapé, é a regularidade e a satisfação pessoal: “O mais importante é que as pessoas encontrem uma atividade que gostem e consigam manter ao longo do tempo. A continuidade é o que realmente traz benefícios para a saúde.”

Fonte: jornal.usp.br

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