A maratona, uma das provas mais desafiadoras do atletismo, testemunhou um feito histórico que reconfigura os limites da resistência humana. Sebastian Sawe, do Quênia, tornou-se o primeiro atleta a completar os 42 quilômetros em menos de duas horas em um evento oficial, ao vencer a Maratona de Londres com o impressionante tempo de 1h59min30s. O etíope Yomif Kejelcha, estreante na distância, também superou a marca simbólica, chegando apenas 11 segundos depois de Sawe. Este marco, antes considerado uma barreira intransponível tanto física quanto mentalmente, era um “sonho no mundo do atletismo”, conforme explica o professor Rômulo Bertuzzi, da Escola de Educação Física e Esporte da USP.
O Fim de uma Era: A Barreira das Duas Horas Superada
A preparação para a maratona de elite é extremamente rigorosa. Maratonistas de alto nível competem poucas vezes ao ano – geralmente uma ou duas provas – devido ao impacto exaustivo que o treinamento e a corrida impõem ao organismo. Eles chegam a correr uma média de 200 quilômetros por semana, quase o dobro do volume de um corredor recreativo. Para suportar essa carga, a alimentação é meticulosamente adaptada, com um consumo elevado de carboidratos, essencial para a energia e recuperação.
A Ciência na Pista: Treinamento e Estratégia de Sebastian Sawe
O sucesso de Sawe não é apenas fruto de talento e dedicação, mas de uma profunda integração com a ciência do esporte. Analisando entrevistas do campeão, o professor Bertuzzi notou a crescente presença de métodos científicos em sua preparação. “Nos últimos anos, ele mudou profundamente o treinamento, a nutrição e o sono”, destaca Bertuzzi. Além disso, a estratégia de Sawe durante a prova foi um capítulo à parte. “Ele tinha uma estratégia de prova muito bem definida, parece que estava tudo programado: o quanto ele deveria consumir de carboidrato, qual linha percorrer na rua e como agir em caso de vento ou ausência dele”, revela o especialista.
O Domínio Africano: Tradição, Talento e Ascensão Social
Desde 2003, o recorde mundial da maratona tem se alternado exclusivamente entre atletas do Quênia e da Etiópia, países do leste africano que mantêm uma hegemonia incontestável nas corridas de fundo. Bertuzzi faz uma analogia clara: “As corridas de fundo estão para esses países assim como o futebol está para o Brasil”. A prática da corrida é incentivada desde a infância na região, com os atletas evoluindo gradualmente entre diferentes distâncias até alcançarem a maratona, considerada a prova de maior prestígio e geralmente disputada no auge da carreira.
Além da aptidão natural e da cultura, as corridas de longa distância representam uma possibilidade real de ascensão socioeconômica para muitos atletas da região. Por ser um esporte que exige poucos recursos iniciais, a prática se populariza e o nível competitivo se eleva exponencialmente, criando um ambiente onde os talentos são constantemente lapidados e incentivados a superar novos limites.
Fonte: jornal.usp.br
