As altas temperaturas, além dos impactos conhecidos na saúde, podem estar diretamente ligadas ao aumento do risco de homicídios na América Latina. É o que aponta um estudo do projeto Saúde Urbana na América Latina (Salurbal-Clima), com participação da Faculdade de Medicina da USP, que identificou uma associação entre o calor extremo e o crescimento da violência em 307 cidades da região.
O Vínculo entre Calor e Comportamento Violento
Sara Lopes de Moraes, pesquisadora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e principal autora do estudo, explica que a relação entre calor e comportamento humano tem sido investigada há décadas. Segundo ela, pesquisas desde os anos 1970 e 1990 já indicavam que “em dias mais quentes, há uma maior probabilidade de as pessoas ficarem mais irritadas e agressivas”. Além disso, a mudança na rotina impulsionada pelo calor pode levar a um maior consumo de álcool, contribuindo para comportamentos mais violentos.
Como a Pesquisa Foi Conduzida
A pesquisa analisou dados entre os anos 2000 e 2019, focando na relação entre temperaturas elevadas e homicídios em municípios latino-americanos, incluindo cidades brasileiras. Sara Lopes de Moraes esclarece que o objetivo não foi comparar cidades quentes com cidades frias, mas sim analisar cada local individualmente: “O objetivo foi analisar cada cidade individualmente e verificar se, nos dias mais quentes em relação à média local, havia uma maior associação com mortes por homicídio”. A metodologia permitiu identificar essa correlação em diversos grupos populacionais, abrangendo homens, mulheres e diferentes faixas etárias.
Impacto Relevante Apesar dos Números
Embora apenas 0,61% das mortes por homicídio registradas no período possam ser diretamente atribuídas ao calor, a pesquisadora enfatiza a relevância do achado diante do cenário de intensificação das ondas de calor provocadas pelas mudanças climáticas. Ela ressalta que a violência é um fenômeno multifacetado, profundamente enraizado em fatores estruturais como a desigualdade socioeconômica, a violência de Estado e a ação do crime organizado. Contudo, o calor emerge como um fator de risco adicional, capaz de agravar um problema já complexo. “Mesmo sendo um resultado considerado pequeno, ele é importante porque estamos observando cada vez mais ondas de calor, e isso pode aumentar o risco dessas mortes”, destaca Sara.
Planejamento Urbano como Solução
Os resultados do estudo reforçam a urgência de integrar os efeitos das mudanças climáticas no planejamento das cidades. Para a pesquisadora, é fundamental pensar em estratégias de redução do calor urbano, desenvolver sistemas de alerta eficazes e implementar ações de educação para preparar a população para eventos extremos. “Essas estratégias podem contribuir para reduzir não apenas os impactos diretos do calor sobre a saúde, mas também a mortalidade associada aos homicídios”, conclui Sara Lopes de Moraes, apontando caminhos para cidades mais resilientes e seguras em um futuro com temperaturas crescentes.
Fonte: jornal.usp.br
