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"title": "Marcas e o Valor dos Rituais: Por Que a Qualidade da Presença Supera a Exposição em Parques e Espaços Compartilhados",
"subtitle": "Em um mundo saturado de mensagens, a relevância se torna a nova visibilidade, desafiando empresas a apoiarem experiências autênticas sem colonizar o simbólico.",
"content_html": "<p>Em uma sociedade cada vez mais acelerada e saturada de informações, a busca por significado e pertencimento impulsiona uma redescoberta: a importância fundamental dos rituais. Longe de desaparecerem com a modernização, como se chegou a acreditar, essas práticas ganharam relevância renovada, atuando como bússolas para organizar o tempo e fortalecer laços sociais.</p>nn<h3>A Redescoberta dos Rituais na Vida Moderna</h3>n<p>Clássicos da antropologia e da sociologia, como Arnold Van Gennep, Victor Turner e Émile Durkheim, já haviam desvendado a capacidade dos rituais de marcar passagens da vida, criar “communitas” – intensas experiências de pertencimento coletivo – e reafirmar valores compartilhados. Hoje, seja em casamentos, formaturas, celebrações religiosas, festivais ou mesmo em práticas cotidianas, os rituais são o que transformam o simples passar do tempo em uma experiência significativa.</p>n<p>Esse poder de gerar significado não passou despercebido pelo mundo corporativo. Por décadas, o foco das marcas esteve na visibilidade. Contudo, em um cenário onde as pessoas podem facilmente ignorar anúncios e bloquear conteúdos, o desafio contemporâneo não é apenas aparecer, mas ser relevante. Muitas empresas e instituições perceberam que a participação em experiências significativas gera uma conexão muito mais profunda do que a exposição massiva.</p>nn<h3>O Dilema das Marcas: Presença com Qualidade ou Apropriação?</h3>n<p>Existe, no entanto, uma distinção crucial: rituais pertencem às comunidades, não às marcas. Quando uma organização apoia e fortalece práticas sociais já existentes, sua presença é percebida como legítima. Por outro lado, a tentativa de se apropriar dos significados de um ritual frequentemente resulta em rejeição. Exemplos de sucesso como Nike, Patagonia e Natura demonstram que é possível apoiar experiências relevantes – como corrida, consciência ambiental ou cuidado – sem reivindicar sua autoria, atuando como facilitadores, e não como donos.</p>nn<h3>Parques Urbanos como Palco do Debate sobre a Presença Comercial</h3>n<p>A tensão entre a presença legítima e a apropriação se manifesta claramente em cidades como São Paulo. A crescente ocupação comercial em parques públicos como Ibirapuera, Villa-Lobos e Trianon, com instalações e espaços concessionados, é justificada pela necessidade de recursos para manutenção, segurança e conforto. Embora esses benefícios possam ser reais, o problema surge quando a ocupação compromete a natureza simbólica desses lugares.</p>n<p>Parques são mais do que equipamentos urbanos; são espaços de contemplação, convivência, silêncio e observação da paisagem. São, em essência, "commons" – bens compartilhados que pertencem simbolicamente à coletividade, raros territórios livres da incessante enxurrada de mensagens e estímulos comerciais. A questão, portanto, não é a presença das marcas em si, mas a qualidade dessa presença.</p>nn<h3>O Futuro da Conexão: Preservar, Não Colonizar</h3>n<p>Uma organização pode contribuir significativamente para a preservação de um parque sem transformá-lo em vitrine. Pode apoiar um evento sem converter seus participantes em mera audiência. Pode fortalecer um ritual sem ocupar o seu centro. O grande desafio da comunicação contemporânea reside em compreender que nem todos os espaços precisam ser conquistados. Pelo contrário, alguns dos ativos mais valiosos de uma sociedade – o silêncio, a contemplação, a memória, a paisagem e os rituais – dependem justamente da existência de territórios protegidos da disputa permanente pela atenção.</p>n<p>As organizações mais inteligentes já entenderam: seu papel não é colonizar esses espaços simbólicos, mas ajudar a preservá-los. Em uma era de excesso de informação e aceleração da experiência, a qualidade da presença se tornou, inquestionavelmente, mais importante do que a quantidade de exposição.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br
