A imagem dos instrumentos de metal, muitas vezes associada ao fundo de uma orquestra, barulhenta e imponente, ganha um novo contorno quando eles se reúnem em formações mais íntimas. Longe da grandiosidade sinfônica, um quinteto de metais revela uma sonoridade rica, complexa e capaz de atravessar séculos de história musical, provando que esses instrumentos não só têm voz própria, mas também um poder de entretenimento e emoção inigualável.
A Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) demonstrou esse potencial em um concerto especial, “Osusp pela Osusp: Quinteto de Metais”, que jogou luz sobre a versatilidade desses instrumentos. Amarildo Nascimento, primeiro trompete da Osusp, compara a música ao “alimento diário para o corpo”, ressaltando sua essencialidade.
A Origem e a Versatilidade do Quinteto de Metais
A formação moderna de um quinteto de metais, composta por dois trompetes, trompa, trombone e tuba, nasceu em Nova York após a Segunda Grande Guerra. No entanto, a presença desses instrumentos na música é muito mais antiga. O repertório cuidadosamente selecionado para a apresentação da Osusp, idealizado por Carlos Freitas (primeiro trombone) e Amarildo Nascimento, é um testemunho dessa longevidade.
“Decidimos por esse repertório porque ele é eclético, mostra a presença dos metais desde a Renascença até a atualidade. Em Samuel Scheidt, lá em 1621, já tínhamos metais”, explica Nascimento. Essa linha do tempo musical permite ao público viajar da complexidade barroca de Bach, com sua “Fuga em Sol Menor”, à delicadeza impressionista de Claude Debussy em “La Fille aux Cheveux de Lin”, sem perder a essência vibrante dos metais.
A Emoção por Trás do Brilho
Para os músicos, a experiência de tocar em um quinteto é diferente e intensa. Amarildo Nascimento, com duas décadas como trompetista da Osusp, confessa que o “frio na barriga” antes de um concerto é uma constante. “É normal. Quem não sente esse frio na barriga tem alguma coisa errada, né?”, brinca.
Diferente de uma orquestra completa, onde os metais podem ficar “escondidos” pela acústica, em um quinteto o protagonismo é total. Essa visibilidade amplifica a ansiedade, mas também a gratificação. Nascimento destaca que a música, embora não envolva riscos de vida como outras profissões, está entre as que mais causam estresse mental devido ao alto nível de performance e perfeccionismo exigidos.
Do Blues ao Brasil: Um Repertório que Conquista
A capacidade de adaptação dos metais a diferentes gêneros musicais é um dos seus maiores trunfos. O quinteto da Osusp explorou essa diversidade, incluindo obras do contemporâneo brasileiro Carlos dos Santos e a emblemática “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, valorizando a música nacional e latina. Além disso, o concerto fez uma reverência fundamental ao blues e ao jazz, pilares da música afro-americana, com “Beale Street Blues”, de W. C. Handy — considerado o pai do blues — em arranjo de Luther Henderson, e a clássica “Amazing Grace”.
Mais que Som, Uma Experiência
A música de um quinteto de metais tem um poder de entretenimento universal. “Não importa se o público é pequeno ou grande, ela entretém todos, desde crianças até idosos”, afirma Nascimento. O objetivo é claro: desmistificar a percepção dos metais como meros “barulhentos do fundo” e mostrar sua capacidade de tocar, emocionar e surpreender.
A reação do público é a maior recompensa. “O comentário que mais me comove é: ‘Nossa, eu não sabia que o trompete poderia soar tão bonito assim.’ É por isso que é tão gratificante tocar em um quinteto de metais”, conclui Nascimento. Essa é a verdadeira magia que acontece quando os metais se unem, não para fazer barulho, mas para criar beleza e conectar pessoas através da música.
Fonte: jornal.usp.br
