USP e Jogos dos Povos Indígenas: Como Saberes Ancestrais Promovem Educação Decolonial e Sustentabilidade no Esporte Brasileiro
Pesquisa e curso de difusão na Escola de Educação Física da USP analisam o evento multiesportivo que valoriza a cultura, a cooperação e a conexão com a natureza.
Com o lema ‘Celebrar e não competir’, os Jogos dos Povos Indígenas (JPI) representam um marco na valorização das culturas originárias e na reflexão sobre a descolonização do esporte. Criado em 1996 por iniciativa do Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena (ITC), com apoio do Ministério do Esporte, o evento multiesportivo, que teve sua primeira edição mundial em 2015, é hoje um dos maiores encontros esportivos culturais indígenas da América. Na Universidade de São Paulo (USP), a importância desses jogos tem sido destacada por meio de iniciativas acadêmicas que buscam integrar esses saberes ancestrais à educação física e à discussão sobre sustentabilidade.
Os Jogos dos Povos Indígenas e sua Filosofia
Os JPI vão além da mera competição. Seu princípio fundamental é valorizar as múltiplas manifestações culturais, preservar tradições ancestrais e integrar diferentes povos originários. Ao questionar modelos esportivos baseados na rivalidade e na divisão, os jogos convidam a uma profunda reflexão sobre a descolonização das práticas esportivas, promovendo a cooperação e a coletividade como pilares centrais. Desde sua primeira edição em Goiânia, capital de Goiás, o evento tem sido um palco para a celebração da diversidade e da riqueza cultural dos povos indígenas do Brasil e de outros países.
A Análise da USP: Decolonização e Sustentabilidade
A relevância dos jogos tradicionais indígenas foi minuciosamente analisada pelas professoras Ana Cristina Zimmermann e Soraia Chung Saura, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP. Em seu artigo intitulado ‘Jeux des peuples indigènes: L’expérience Brésilienne pour des pratiques décoloniales et durables’ (Jogos dos Povos Indígenas: A Experiência Brasileira para Práticas Decoloniais e Sustentáveis), veiculado na publicação internacional Corps, as docentes ressaltam a importância desses jogos na difusão de práticas decoloniais na educação física. A pesquisa destaca como a integração desses saberes nos currículos escolares e universitários pode valorizar povos historicamente invisibilizados, oferecendo uma perspectiva que vai além do ensino sobre saúde e cuidado com o corpo, revelando modos de viver sustentáveis, baseados na cooperação, coletividade e respeito à diversidade.
O Curso de Difusão: Vozes Indígenas na Academia
Complementando a pesquisa, as docentes coordenaram em 2022 o curso de difusão ‘Jogos dos Povos Indígenas e Saberes Originários’, em parceria com o Comitê Intertribal (ITC). A iniciativa, que contou com 14 aulas ministradas por professores indígenas, foi fundamental tanto como fonte de pesquisa quanto para ampliar a visão de mundo dos participantes. O curso proporcionou um espaço único para o compartilhamento de conhecimentos sobre a importância dos jogos em diferentes etnias. Um participante relatou: ‘As histórias, as experiências e a diversidade são fascinantes. O espaço de fala dos professores indígenas é extremamente importante. […] Também estou aprendendo a ser antirracista a partir da perspectiva dos povos indígenas.’ Essa experiência formativa enriqueceu a compreensão sobre a valorização das culturas originárias e a incorporação de abordagens decoloniais no campo da educação física.
Mais que Esporte: Conexão com a Natureza e o Bem Viver
Para os povos indígenas, os jogos são muito mais do que atividades físicas ou brincadeiras; eles são um elemento central na formação de comunidades, abrangendo dimensões educacionais, sociais, simbólicas, identitárias e culturais. Refletindo a diversidade de cada etnia, esses jogos evidenciam a profunda conexão com a natureza, a preservação das tradições, a integração social e a manutenção da vida em movimento. Nas comunidades, os jogos tradicionais são parte integrante do ‘bem viver’, envolvendo respeito e contato íntimo com a natureza, os animais e os elementos. Este modo de vida está intrinsecamente ligado à conservação da biodiversidade e à integração entre diferentes seres vivos, rejeitando a predação desnecessária e o acúmulo de bens materiais. O movimento, presente em todos os jogos, rituais e atividades cotidianas, revela uma intensa integração entre corpo, natureza e conhecimento, fortalecendo o sentimento de pertencimento à terra e promovendo maior equilíbrio corporal e mental. Modalidades como arco e flecha, cabo de guerra, corrida com tora, canoagem, rõkrã (similar ao hóquei) e arremesso de lança ilustram a rica programação que une o aspecto atlético ao ritualístico e à relação com o meio ambiente.
Fonte: jornal.usp.br
