Como a Arte Latino-Americana Reconfigura a Modernidade: Uma Jornada do Cosmopolitismo às Críticas Decoloniais e a Busca por Identidades Próprias

Como a Arte Latino-Americana Reconfigura a Modernidade: Uma Jornada do Cosmopolitismo às Críticas Decoloniais e a Busca por Identidades Próprias

A professora Alecsandra Matias de Oliveira, da USP, desvenda as nuances entre modernidade, modernização e modernismo, revelando como artistas da América Latina transformaram a estética importada em um campo de reinvenção crítica e autêntica.

A pergunta “como escapar do moderno?” tem ecoado intensamente nos debates sobre arte e história da arte latino-americana, conforme aponta Alecsandra Matias de Oliveira, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP. Mais do que uma simples questão estética, ela revela um horizonte e, paradoxalmente, uma prisão. Para compreender o que está em jogo nesse questionamento, é crucial distinguir três conceitos frequentemente confundidos: modernidade, modernização e modernismo, que operam em níveis distintos e moldam a complexa relação da região com o que se entende por “moderno”.

Desvendando a Modernidade na América Latina: Conceitos e Contradições

Para autores como Mignolo e Quijano, a modernidade transcende uma época, configurando-se como um projeto civilizatório que estabelece hierarquias raciais, culturais e epistêmicas. A modernização, por sua vez, refere-se aos processos institucionais e urbanos – como a criação de museus, escolas de arte e políticas culturais. Já o modernismo designa as linguagens estéticas que buscaram renovar meios e discursos. Na América Latina, desde o início do século 20, artistas e intelectuais enfrentaram o desafio de dialogar com modelos hegemônicos, buscando conciliar o cosmopolitismo com as demandas locais.

Este embate se manifestou nas próprias instituições. No Brasil, figuras como Mário Pedrosa observaram como o Masp, o MAM e a Bienal de São Paulo foram cruciais para a inserção da arte moderna, mas muitas vezes reproduziram critérios eurocêntricos de legitimação. Em países como México, Cuba e Chile, as políticas culturais tentaram alinhar a renovação estética a narrativas de identidade e progresso nacional, mas esbarraram nas profundas desigualdades sociais que separavam os centros urbanos modernizados das vastas periferias rurais e populares.

Modernismos Plurais: Brasil, México, Cuba e Argentina

O modernismo latino-americano nunca foi um processo homogêneo, mas uma tapeçaria de respostas e adaptações. No Brasil, o movimento de 1922, analisado por Aracy Amaral, nasceu da ânsia de romper com o academicismo e de criar uma arte “brasileira”, mesmo que profundamente influenciada por referências europeias como o futurismo e o expressionismo. Essa ambivalência entre ruptura e dependência, entre invenção e empréstimo, tornou-se uma marca constitutiva, revelando uma busca por identidade que, contudo, reproduzia limites sociais e raciais da época, marginalizando expressões populares, indígenas e afro-brasileiras.

No México, o muralismo – com Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros – articulou estética, política e pedagogia visual. Seus murais transformaram a arte moderna em um instrumento público, capaz de educar, fortalecer identidades e narrativas históricas, como a valorização das culturas indígenas e as lutas populares. O muralismo, assim, rompeu com a ideia de modernidade como mera inovação formal, propondo uma arte engajada na vida cotidiana.

Na Argentina, artistas como Xul Solar e Emilio Pettoruti assimilaram o cubismo e o futurismo não como cópias, mas como pontos de partida para invenções enraizadas em seu contexto. Pettoruti aplicou a geometrização cubista a temas locais, refletindo a modernização de Buenos Aires. Xul Solar, por sua vez, levou o hibridismo ao extremo, combinando referências esotéricas, tradições indígenas e misticismo andino em suas pinturas e línguas inventadas, criando um modernismo que construía universos simbólicos próprios. Essas trajetórias mostram um processo de tradução criativa, afirmando uma modernidade simultaneamente cosmopolita e situada.

A Crítica Epistemológica e a Descolonização da Arte

A complexidade desses modernismos evidencia uma tensão fundamental: a necessidade de participar de circuitos internacionais e, ao mesmo tempo, de construir expressões enraizadas em contextos locais. Essa crítica ganhou peso conceitual com autores como Gerardo Mosquera e Mari Carmen Ramírez. Mosquera alertou para a forma como o circuito global muitas vezes exotiza artistas da região, reduzindo suas obras a marcadores identitários e reforçando hierarquias que mantêm a América Latina em posição periférica.

Mari Carmen Ramírez, por sua vez, defende a descanonização das narrativas eurocêntricas que estruturaram a história da arte moderna. Ela mostra como a produção latino-americana foi sistematicamente enquadrada como derivativa e propõe a construção de marcos interpretativos próprios, que reconheçam a agência e as especificidades históricas da região. Juntos, Mosquera e Ramírez revelam que o debate sobre modernidade e modernismo na América Latina é estético, mas, sobretudo, epistemológico, exigindo o confronto com filtros interpretativos impostos pelo Norte global.

Escapar do Moderno: Reconfigurando a Arte Contemporânea no Sul Global

A partir dos anos 1980, a arte contemporânea latino-americana aprofundou essa crítica, interrogando frontalmente os limites e as contradições do modernismo. Esse deslocamento, ético, político e epistemológico, levou artistas a explorar experiências corporais, memórias traumáticas, violências históricas e processos de diáspora. Nomes como Doris Salcedo, que transforma o trauma colombiano em esculturas de ausência e luto, Ana Mendieta, que inscreve o corpo feminino e migrante como território simbólico em suas ‘Siluetas’, e Lygia Clark, que deslocou o foco da obra para a relação e o toque com seus ‘objetos relacionais’, são exemplos marcantes.

Esses artistas demonstram que a crítica ao moderno não se limita a negar suas dinâmicas, mas a expor suas falhas estruturais: o apagamento de corpos, a violência, a normatividade estética e a promessa de universalidade nunca cumprida. Ao trazer para o centro temas como memória, corpo, violência, espiritualidade e identidade, a arte contemporânea latino-americana reconfigura o moderno não como um horizonte neutro, mas como um espaço de confronto que precisa ser constantemente reinventado.

Escapar do moderno, nesse sentido, não significa rejeitar seus meios ou buscar um “fora” da modernidade. Trata-se, antes, de deslocar, reconfigurar e desobedecer às matrizes hegemônicas que definiram o moderno a partir do Norte global. Ao incorporar saberes indígenas, afrodiaspóricos, populares e urbanos, muitos artistas latino-americanos transformaram o moderno em um conceito disputado, onde a modernidade deixa de ser um modelo universal para se tornar um lugar de reinvenção crítica. Essa operação evidencia que se evadir do moderno talvez signifique, mais do que abandoná-lo, reinscrevê-lo desde o Sul, produzindo outras narrativas possíveis para a arte e para a própria noção de modernidade.

Fonte: jornal.usp.br

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