Do Caos Urbano à Serenidade Montanhosa
Em um movimento que ressoa com a busca por um ritmo de vida mais autêntico, jovens profissionais estão trocando o burburinho das metrópoles italianas pela tranquilidade e pela beleza natural do Cilento. Alberto Carrato e Maria Chiara Faganel, ambos na casa dos vinte anos, são exemplos notáveis dessa tendência. Com diplomas universitários e carreiras promissoras em cidades como Milão e Gorizia, eles decidiram se mudar para Cuccaro Vetere, um vilarejo pitoresco com cerca de 300 habitantes aninhado nas encostas do Monte Gelbison. A motivação? Viver em outro compasso, praticar uma hospitalidade respeitosa e sustentável, e revelar o Cilento mais escondido ao mundo.
Um Convento Renascido como Hotel de Charme
Em abril, Alberto e Maria Chiara inauguraram seu projeto audacioso: um hotel de experiência com nove quartos, instalado nas antigas dependências do Convento Franciscano. O local, restaurado pelo município com fundos europeus, preserva vestígios de afrescos do século XIV e elementos arquitetônicos dos séculos XVIII. O resultado é um espaço de grande fascínio, onde a elegância minimalista se funde com móveis de recuperação rural e design contemporâneo. Ali, os hóspedes encontram o silêncio, o ar puro das montanhas, o sabor de tomates frescos colhidos na horta e o tempo para se reconectar com a natureza e consigo mesmos.
Retorno às Raízes e a Alma da Culinária Local
Para Alberto, a aventura em Cuccaro Vetere carrega um significado pessoal profundo. A cidade é o berço de seu pai, Dante, que emigrou nos anos 1960 e faleceu há alguns anos. Sua mãe, Patrizia, acompanhou o filho nessa jornada e hoje é a alma da cozinha da Osteria del Convento. Com poucas mesas dispostas no claustro, o restaurante serve receitas autênticas, celebrando os sabores genuínos do Cilento. Essa é uma história de “tornanza” – o retorno às origens –, de redescoberta e de novas perspectivas, que está impulsionando a revitalização de muitos vilarejos no sul da Itália.
Natureza Exuberante e Tesouros Históricos
A região ao redor de Cuccaro Vetere é um santuário natural. Maciços calcários, castanhais extensos e rios que esculpiram gargantas profundas, como o Mingardo, que a lenda associa ao mítico Estige da Eneida. Na localidade de San Severino di Centola, a escadaria para o Oásis Panoria revela a Ponte Ferroviária Fascista, uma impressionante obra de engenharia em tijolos vermelhos que emerge em meio a um cenário selvagem. Próximo, o vilarejo abandonado de San Severino, com suas casas de pedra e ruínas de torres antigas, oferece um vislumbre de um passado estratégico e silencioso. Hoje, associações locais como “Il Borgo” promovem encontros culturais, mantendo viva a memória e a atmosfera desses locais.
Arte, Gastronomia e Hospitalidade Cilentana
A arte também encontra seu espaço no Cilento, com iniciativas como o Pisciott’Arte, uma bienal que transforma o centro histórico de Pisciotta em uma galeria a céu aberto. O fascínio pela paisagem, combinada com a autenticidade das vielas de pedra e palácios nobres, atrai compradores estrangeiros, como suecos e ingleses, que se encantam com a beleza suspensa entre oliveiras e o mar. Hotéis boutique como o Marulivo, instalado em um antigo palácio que foi mosteiro, oferecem uma imersão na arte e na hospitalidade cilentana. A experiência gastronômica é igualmente rica, com restaurantes como a Cantina Lamadè, onde o menu muda diariamente e celebra ingredientes locais como a mozzarella na mortella, as anchovas de menaica e as azeitonas de Pisciotta. O mantra local, “Vem que eu te conto o Cilento!”, resume o espírito de partilha e descoberta que une moradores e visitantes.
Um Convite à Descoberta Lenta
O Cilento convida a um turismo mais consciente e pausado. Em Omignano, Gustophia, a “despensa popular” de Annacarla Tredici, oferece produtos locais e degustações de queijos produzidos a partir de cabras da antiga raça cilentana. A área montanhosa e pastoral revela paisagens de tirar o fôlego, como a de Rocca Cilento, um aglomerado de casas de pedra a quase 600 metros de altitude, onde o céu de outono presenteia com pores do sol espetaculares. É um convite a percorrer essas terras com passos lentos e coração aberto, descobrindo a resiliência de um território moldado por monges, brigantes, pastores e peregrinos, e que hoje renasce através de histórias e sabores únicos.


