Era noite em Montevidéu, 22h30, quando o telefone tocou na residência de Maria Aparecida Gomide. Longe de seu país, o Brasil, e em um estado de angústia constante, ela atendeu. Do outro lado da linha, uma voz com sotaque uruguaio, firme e direta, informou que seu marido, Aloysio Marés Dias Gomide – diplomata brasileiro, sequestrado pelos Tupamaros 209 dias antes – estava vivo, bem e acabara de ser libertado. Aliviada e enternecida, Maria Aparecida repassou a informação a Quintino Symphoroso Deseta, também diplomata, que partiu no mesmo Mercedes Benz verde que, meses antes, havia servido de fuga aos sequestradores. Aloysio Gomide estava, enfim, livre, encerrando um cativeiro que marcou profundamente as relações do Brasil com a geopolítica da Bacia do Prata e com o mundo. Mas a história de seu sequestro é um capítulo dramático da Guerra Fria na América do Sul, entrelaçada com a ascensão dos Tupamaros e a trágica execução de um agente norte-americano.
O Uruguai em Convulsão: A Ascensão dos Tupamaros
No biênio 1970-1971, o Uruguai, outrora um país de vanguarda com altos indicadores sociais e econômicos, vivia uma profunda transformação. Após a Segunda Guerra Mundial, sua economia entrou em colapso, gerando desigualdade e conturbação social e política. A efervescência da Guerra Fria, com ecos da Revolução Cubana e a passagem de Che Guevara por Montevidéu em 1961, impulsionou a polarização. Nesse cenário, o advogado Raúl Sendic liderou a mobilização das esquerdas, culminando na formação do Movimento Nacional de Libertação Tupamaros (MNL-T). Inspirados em figuras históricas de resistência, os Tupamaros, inicialmente, focaram em conscientização e ações como assaltos a bancos para expor a “espoliação capitalista”. Contudo, após o fracasso da tentativa de tomar a cidade de Pando em 1969, que resultou na prisão de sua cúpula, o movimento radicalizou-se, adotando a guerrilha urbana e, em seguida, uma nova e ousada tática: o sequestro de personalidades.
O Plano Satã: Sequestros de Diplomatas e a Linha Dura de Pacheco Arce
A ascensão de Jorge Pacheco Arce à presidência, um jornalista sem passado militar que adotou uma linha dura, intensificou o confronto. Pacheco Arce reprimiu liberdades, interveio em universidades e governou por decreto, o que levou o MNL-T a escalar suas ações. Após sequestros de figuras nacionais, em 28 de julho de 1970, os Tupamaros deflagraram o “Plano Satã”, uma operação diabólica para raptar personalidades e forçar a libertação de seus líderes presos em Punta Carretas. O primeiro alvo foi o juiz Daniel Pereyra Manelli. Três dias depois, em 31 de julho, em uma ação coordenada e de alta eficiência, sequestraram o diplomata brasileiro Aloysio Marés Dias Gomide, o agente norte-americano Daniel Anthony Mitrione (responsável pelo Office of Public Safety, braço da inteligência dos EUA na região) e outros dois diplomatas americanos. Gomide, um diplomata experiente e pai de seis filhos, tornava-se um peão em um jogo de xadrez geopolítico.
O Ultimato, a Execução e a Angústia Crescente
Os sequestros simultâneos chocaram o mundo. Através de comunicados, o MNL-T exigia a libertação dos presos políticos de Punta Carretas. A presidência de Jorge Pacheco Arce, no entanto, manteve-se irredutível, recusando-se a negociar, “independentemente das consequências”, seguindo o exemplo da Guatemala, onde diplomatas haviam sido assassinados. A pressão internacional cresceu exponencialmente. O presidente Richard Nixon dos EUA e o presidente Emílio Garrastazu Médici do Brasil mobilizaram seus gabinetes de crise. O Brasil, com fortes laços com o Uruguai e a mãe de Médici sendo uruguaia, via-se em uma situação delicada. Contudo, em 9 de agosto de 1970, os Tupamaros cumpriram sua ameaça: Daniel Anthony Mitrione foi executado com três tiros. A notícia causou comoção mundial, e o governo brasileiro, através do ministro Mário Gibson Barboza, condenou o ato como “crime bárbaro, frio e premeditado”, acentuando a obrigação dos Estados de proteger diplomatas.
A Campanha “Só o Amor Constrói”: A Luta Incansável de Maria Aparecida
Após a execução de Mitrione, a esperança para Aloysio Gomide parecia se esvair. Maria Aparecida Gomide, sem lágrimas, fez um apelo público e, com o apoio de um advogado próximo aos Tupamaros, soube da exigência de um milhão de dólares pelo resgate. O governo brasileiro, embora solidário, recusou-se a fornecer o montante, por considerar uma ingerência nos assuntos uruguaios. Maria Aparecida, então, iniciou uma campanha popular no Brasil, lançada na TV Tupi com o showman Flávio Cavalcanti, sob o slogan “Maria Aparecida Gomide – Só o amor constrói”. A iniciativa mobilizou o país, com doações de todos os segmentos da sociedade, desde um dia de salário de operários a joias de personalidades. Apesar dos esforços, o valor total não foi alcançado, mas os Tupamaros aceitaram uma fração. A complexa logística para levar milhões de cruzeiros brasileiros ao Uruguai foi superada por voluntários como Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo, e mais tarde pelo diplomata Quintino Deseta, com a “vista grossa” das autoridades brasileiras.
Com o dinheiro entregue, os Tupamaros divulgaram o Comunicado n. 16, informando que Aloysio Gomide seria libertado, mas impuseram uma última condição: a revogação do estado de sítio no Uruguai. Diante da pressão internacional renovada, o governo uruguaio cedeu, e o estado de sítio foi revogado em 22 de fevereiro de 1971. Naquela mesma noite, o telefone tocou novamente na casa de Maria Aparecida. Aloysio Gomide estava livre. Após 209 dias de cativeiro, angústia e uma campanha popular sem precedentes, o diplomata brasileiro estava de volta, um testemunho da resiliência humana e da complexidade de um período turbulento da história latino-americana.
Fonte: jornal.usp.br
