A sensação de um descompasso temporal, onde o futuro parece ter chegado “ontem”, não é mais um privilégio da idade. Jovens e idosos compartilham hoje a ansiedade de um mundo em constante e vertiginosa transformação. Ferramentas aprendidas em poucos anos podem se tornar obsoletas, identidades profissionais se constroem em terrenos tecnológicos instáveis e a pressão por atualização é uma constante para todos.
Essa é a percepção de Paulo Nassar, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, que, ao se aproximar da aposentadoria institucional aos 75 anos, observa de perto a dinâmica entre gerações na universidade. Ele convive diariamente com graduandos, mestrandos e doutorandos, testemunhando a formação de novas mentes em um cenário de mudanças aceleradas. Essa vivência, entre o início de trajetórias e décadas de vida acadêmica, o leva a refletir sobre três conceitos-chave para entender a experiência contemporânea do tempo: velhice, obsolescência e longevidade.
As Três Dimensões do Tempo: Velhice, Obsolescência e Longevidade
A velhice, primeiramente, é uma condição intrínseca ao ser humano. Ela se manifesta no corpo que carrega as marcas do tempo, na memória que acumula saberes e na consciência da finitude da vida. Em muitas culturas tradicionais, os mais velhos eram pilares de autoridade simbólica, guardiões de histórias e rituais que asseguravam a continuidade da experiência coletiva.
Já a obsolescência opera em uma lógica distinta, não biológica, mas técnica e econômica. Um objeto é considerado obsoleto quando sua funcionalidade dentro de um sistema tecnológico se esgota ou quando é substituído por algo mais eficiente. No século XX, a indústria incorporou a obsolescência programada, criando bens com vida útil limitada. Hoje, essa lógica transcende os objetos, atingindo conhecimentos, linguagens e práticas sociais, estabelecendo um ritmo cultural em que a humanidade vive mais, mas as coisas duram menos.
Nesse cenário, emerge a ideia de longevidade. Diferente da velhice e da obsolescência, a longevidade não se refere apenas à duração de algo, mas à sua capacidade de manter-se relevante e significativo ao longo do tempo. Obras literárias, instituições, rituais e conhecimentos que atravessam décadas ou séculos sem perder o sentido exemplificam a longevidade, pois conseguem dialogar continuamente com novas gerações.
Santiago e a Dignidade da Experiência
A literatura oferece um exemplo marcante dessa distinção em “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. O protagonista, Santiago, é um pescador cubano que, apesar da idade e da fadiga, não é obsoleto. Sua experiência, paciência e a relação quase mística com o oceano representam um saber que transcende a lógica da eficiência imediata. Ele luta por dias contra um peixe gigante e, embora retorne à praia apenas com o esqueleto da criatura, devorado por tubarões, sua dignidade e integridade humana permanecem intactas. A história de Santiago não se mede pelo resultado material, mas pela intensidade de sua jornada e sua resistência.
A Confusão Contemporânea e a Aceleração Digital
A sociedade contemporânea frequentemente confunde velhice com obsolescência. Descartamos rapidamente objetos, saberes e até pessoas, sem reconhecer o valor simbólico e a experiência acumulada que possuem. Essa confusão é agravada pela aceleração tecnológica que atinge todas as idades: jovens programadores veem linguagens desaparecerem, e profissionais recém-formados precisam de aprendizado contínuo. A promessa de uma juventude eterna convive com a ansiedade de se tornar rapidamente ultrapassado.
O Papel da Universidade na Preservação do Sentido
Nesse contexto, a universidade desempenha um papel crucial. Instituições como a USP são espaços dedicados a cultivar conhecimentos de longa duração. A ciência, a filosofia, a literatura e as humanidades produzem interpretações do mundo que não se esgotam na lógica da atualização tecnológica. Elas preservam aquilo que a velocidade tende a apagar: a memória, o contexto e a capacidade de refletir sobre a própria experiência histórica.
A tensão entre o tempo biológico das vidas humanas, o tempo acelerado das tecnologias e o tempo longo da cultura define a experiência contemporânea. Velhice é atravessar o tempo do corpo e da memória; obsolescência é perder lugar em um sistema técnico; longevidade é continuar produzindo sentido. Nassar conclui que essas dimensões não são opostas, mas coexistem, e a questão fundamental é, afinal, o que merece durar.
Fonte: jornal.usp.br
