Sua Atenção Foi Roubada, Não Perdida: Por Que a Força de Vontade Individual Não Basta e Como o Ativismo da Atenção Propõe a Libertação para o Florescimento Humano na Era Digital

A sensação de que a atenção está cada vez mais escassa não é apenas uma percepção individual, mas uma realidade alarmante denunciada por diversos estudiosos. O jornalista britânico Johann Hari, em seu livro “Foco Roubado”, investiga profundamente a perda da capacidade humana de prestar atenção, revelando um cenário sombrio imposto por um “massacre” ao nosso foco.

A análise, embasada em neurologia, ciências sociais e relatos de insiders das big techs, aponta para a configuração das tecnologias de comunicação e seus modelos de negócio, projetados para nos manter constantemente conectados e rolando telas. Contudo, as causas vão além, abrangendo desde dietas processadas e a ilusão da multitarefa no ambiente de trabalho, até uma infância com menos espaço para a brincadeira e um sistema educacional focado na competição.

Redefinindo o Conceito de Atenção

Para um grupo de pensadores e ativistas, o problema se aprofunda no próprio conceito de atenção que nos é imposto: um ideal utilitarista, voltado para o consumo e a produtividade. Para essa corrente, “recuperar a atenção” não significa apenas ter mais tempo para consumir ou ser eficiente no trabalho. A atenção, em seu grau mais elevado, é vista como aquilo que nos torna humanos, empáticos e capazes de colaborar para resolver desafios globais, como a crise climática, ou simplesmente florescer e amar. A reflexão proposta é: quanto tempo de qualidade com entes queridos foi roubado pelo rolamento infinito de uma tela?

Força de Vontade Não é Suficiente

O manifesto desse grupo, materializado no livro “Attensity”, não prega o ludismo ou a aversão à tecnologia. Pelo contrário, propõe uma reapropriação da nossa mente, um “reflorestamento” da atenção que transcenda a monocultura dos algoritmos. A ideia é cultivar um ecossistema diverso de curiosidade, cuidado com o outro e liberdade.

A mensagem central é clara: a força de vontade individual não é a resposta para combater um sistema multibilionário projetado para mercantilizar e escravizar a atenção humana. A solução defendida é sistêmica e coletiva, um “Ativismo da Atenção” que se apresenta como uma luta por justiça e uma revolta emancipadora contra o “fraturamento humano” que reduz nossa existência ao que pode ser quantificado e vendido.

Os Pilares do Ativismo da Atenção

O movimento propõe propostas concretas baseadas em três pilares fundamentais para a vivência desse ativismo:

  1. Estudo: Um compromisso com diversas formas de ensino e aprendizagem centradas na atenção, explorando o que ela é, o que pode ser e o que pode realizar.
  2. Formação de Coalizões: Colaboração e solidariedade entre comunidades diversas – artistas, pais, sindicatos, religiosos – que reconhecem o papel essencial da atenção no florescimento humano.
  3. Criação de Santuários: Espaços onde as pessoas podem se reunir, cuidar umas das outras e experimentar tipos de atenção que não podem ser monetizados.

Esses santuários podem assumir muitas formas, desde bibliotecas e museus reimaginados até práticas comunitárias enraizadas em tradições religiosas, como o Sabbath ou os terreiros, ou culturais, como uma roda de samba ou capoeira. Um exemplo vívido, citado por Peter Schmidt, um dos organizadores do manifesto, é a experiência de escutar a bateria de uma escola de samba na avenida durante o Carnaval brasileiro. Os “amigos da atenção” ressaltam que esses santuários não precisam de perenidade no tempo ou espaço; podem ser momentos construídos ao tocar um instrumento, aprender uma língua rara ou simplesmente ouvir um amigo com verdadeira abertura.

Um Chamado à Ação Coletiva

O Movimento de Libertação da Atenção, através do Ativismo da Atenção, busca discernir as possibilidades revolucionárias do presente, inspirando-se em artistas, pensadores e sonhadores. Ele dá voz aos inúmeros ativistas que já estão criando novas (e revisando antigas) maneiras de dedicar suas mentes e sentidos uns aos outros e ao mundo. Enraizado na sabedoria de diversas tradições, o movimento ilumina novos horizontes de poder político compartilhado, beleza e graça. É um convite para que a atenção, em sua plenitude, seja livremente compartilhada, uma bondade transformadora que os ativistas chamam de “Attentivity”.

Fonte: jornal.usp.br

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