A ciência política brasileira perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e dedicadas: José Álvaro Moisés. Com uma trajetória de mais de três décadas, o professor da Universidade de São Paulo (USP) dedicou sua vida ao estudo aprofundado da democracia, sendo uma figura central tanto na transição democrática do Brasil no final dos anos 1980 quanto na análise contínua dos desafios e da qualidade do regime. Seu trabalho não apenas moldou o pensamento acadêmico, mas também influenciou o debate público e a formação de inúmeras gerações de pesquisadores.
Contribuição Decisiva na Redemocratização Brasileira
No período crucial da redemocratização brasileira, quando muitos de seus futuros orientandos ainda davam os primeiros passos, Moisés já se destacava por sua participação ativa. Seus estudos, em especial a obra “Os dilemas da consolidação da democracia”, ofereceram subsídios essenciais para a compreensão do novo regime. Ele analisou desde a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) – do qual foi co-fundador, ao lado de seu orientador de doutorado, Francisco Weffort – até a discussão do parlamentarismo como alternativa institucional. Sua visão era sempre impulsionada pelo desejo de aprimorar a democracia brasileira, mantendo-se como um observador atento e interlocutor crítico de atores políticos e sociais.
Inovação e Análise da Sociedade e Relações Internacionais
O interesse de José Álvaro Moisés extrapolava as fronteiras nacionais, buscando compreender a inserção do Brasil em um mundo globalizado e interdependente. Essa perspectiva resultou em obras de impacto, como “O futuro do Brasil – A América Latina e o fim da Guerra Fria”, organizada com José Augusto Guilhon Albuquerque. A partir dos anos 1990, Moisés inovou ao se dedicar à condução de surveys de opinião pública. Esses estudos foram fundamentais para traçar o perfil da democracia brasileira, analisar o comportamento eleitoral e a evolução dos partidos, consolidando um legado metodológico e analítico para a ciência política.
Legado Acadêmico e Institucional Duradouro
Na USP, Moisés criou um ambiente intelectual vibrante. Como coordenador do Programa de Política Internacional e Comparada, ele atraiu pesquisadores de diversas nacionalidades, ampliando os horizontes dos estudantes de pós-graduação. Muitos se beneficiaram desse espaço formativo, que democratizava o acesso a debates e bibliografia em uma época de menor conectividade. Sua influência se estendeu a diversas instituições: foi professor sênior no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, onde coordenava o projeto Qualidade da Democracia, e dirigiu por duas décadas o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPs), com apoio da Fapesp. Além disso, coordenou a área de Cultura Política e Democracia na Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e atuou em comitês executivos de associações internacionais, como a International Political Science Association e o International Social Science Council. Sua experiência também o levou a ocupar o cargo de secretário nacional de Apoio à Cultura e de Audiovisual no Ministério da Cultura, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Enfrentando os Desafios Contemporâneos da Democracia
Mesmo três décadas após a redemocratização, processo ao qual dedicou energia decisiva, Moisés permaneceu vigilante aos desafios da democracia contemporânea. Entre suas iniciativas mais recentes, destaca-se a coordenação da Corrupteca, uma biblioteca digital especializada em estudos sobre corrupção. Esse projeto, voltado a qualificar o debate público e fortalecer pesquisas sobre integridade e transparência, teve seus resultados apresentados no artigo “A corrupção na percepção da sociedade brasileira: persistência e resiliência” (2023). Sua contribuição à cultura política brasileira é profunda, como evidenciado no livro “A desconfiança política e seus impactos na qualidade da democracia”, organizado com Rachel Meneguello. Integrante do movimento “Direitos Já! Fórum pela Democracia”, Moisés instigava reflexões sobre políticas públicas e qualidade democrática em sua coluna quinzenal na Rádio USP. Em sua última participação, ele abordou a percepção de um retrocesso democrático, mas também ressaltou iniciativas de recuperação e fortalecimento institucional.
Formado em Ciências Sociais pela USP, com mestrado na Universidade de Essex e doutorado pela USP, José Álvaro Moisés foi uma referência incontornável. Seu legado, registrado em vastas publicações e na formação de gerações de cientistas políticos e sociais, continuará a inspirar e a guiar a compreensão dos complexos caminhos da democracia no Brasil.
Fonte: jornal.usp.br


