Descoberta Inédita no Ceará: ‘Fantasma’ de Ubajara, Macaco-Prego Leucístico, Revela Desafios Genéticos e Ambientais para a Espécie
Filhote de macaco-prego-barbado com manchas brancas, apelidado de ‘Fantasma’, é o primeiro caso de leucismo selvagem registrado na espécie e acende alerta para a saúde genética da população no Parque Nacional de Ubajara.
Cientistas brasileiros fizeram uma descoberta notável no Parque Nacional de Ubajara, Ceará: o primeiro registro de leucismo em um macaco-prego-barbado (Sapajus libidinosus) em ambiente selvagem. O filhote, carinhosamente apelidado de “Fantasma” pelos pesquisadores, apresenta manchas brancas incomuns em sua pelagem, um fenômeno raro em primatas. Este achado, publicado na revista Primates, não apenas fascina pela sua singularidade, mas também levanta importantes questões sobre a variabilidade genética e a conservação da espécie.
O Mistério do “Fantasma” de Ubajara
O “Fantasma”, um filhote de aproximadamente três meses, foi observado duas vezes em um período de 30 dias pelo primatólogo Tiago Falótico, pesquisador associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e presidente da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo). Falótico relata ter avistado o macaco branco enquanto instalava gravadores de som na área. Apesar da coloração atípica, o comportamento do filhote era o esperado para sua idade: era carregado pela mãe e demonstrava curiosidade, explorando o ambiente de forma independente. O mais importante é que o “Fantasma” estava plenamente integrado ao seu grupo, sem sinais de rejeição.
Leucismo: Uma Condição Rara na Natureza
O leucismo, que causa a perda parcial ou total de melanina na pelagem ou nas penas, difere do albinismo – este último caracterizado pela ausência total de pigmentação, incluindo nos olhos, que permanecem escuros em animais leucísticos. Embora casos de albinismo já tenham sido identificados em macacos-prego em cativeiro, o registro do “Fantasma” marca a primeira vez que o leucismo é documentado em um Sapajus libidinosus selvagem. Inicialmente, os pesquisadores consideraram a hipótese de fatores ambientais, como poluição ou deficiência alimentar, mas essa teoria foi descartada por não haver outros casos generalizados na população.
Sinais de Alerta para a População
A persistência da coloração incomum, contudo, sugere uma causa genética. Essa hipótese ganhou força quando os pesquisadores revisaram bancos de dados antigos e encontraram registros de um macho adulto, apelidado de “Jenipapo”, que apresentava uma mancha branca mais sutil na cabeça e descoloração nos testículos. Embora Jenipapo pertença a outro grupo e não seja o pai do “Fantasma” (o provável pai é o “Zeca”, do grupo do filhote), a presença de dois indivíduos com padrões de coloração anormais na mesma população em um período de seis anos acende um alerta.
Para os pesquisadores, essa ocorrência pode ser um indicativo de endogamia, ou seja, cruzamento entre indivíduos geneticamente próximos. Isso ocorre em populações pequenas e fragmentadas, onde a diversidade genética diminui e genes recessivos raros têm maior probabilidade de se manifestar. O Parque Nacional de Ubajara, com seus 6.300 hectares, enfrenta pressões como fragmentação territorial, ocupação humana nas extremidades e a entrada de animais domésticos, fatores que podem comprometer o fluxo gênico e a saúde da população de macacos-prego.
Preservando Tradições e Diversidade
A conservação desses macacos-prego é crucial não apenas pela espécie em si, mas também pela sua rica tradição cultural. Tatiane Valença, coautora do artigo, destaca que essa população é conhecida pelo uso complexo de ferramentas: além de pedras para quebrar cocos, eles utilizam pedras para cavar e varetas para caçar aranhas de alçapão – um comportamento raramente observado. A perda de variabilidade genética poderia ameaçar a transmissão dessas tradições de geração em geração.
O caso do “Fantasma” reforça a necessidade de um monitoramento de longo prazo e um registro sistemático desses animais. Conforme Tiago Falótico, um “bicho com cor diferente” pode ser um indicativo de problemas de conservação mais amplos. Tatiane Valença conclui que “conservar essas populações é importante para a gente conservar a diversidade de tradições dos macacos-prego”, o que, por sua vez, “nos ajuda, enquanto seres humanos, a entender mais sobre nós mesmos.” A pesquisa contínua é essencial para proteger a biodiversidade e a inteligência desses primatas brasileiros.
Fonte: jornal.usp.br
