Empresas ao redor do mundo perdem, em média, cerca de 6% do seu faturamento anual devido a fraudes, incluindo as internas. Este dado, revelado por uma pesquisa global da Association of Certified Fraud Examiners, demonstra um problema universal, presente em diferentes países sem distinção. No entanto, na América Latina, o cenário ganha uma camada adicional de complexidade e preocupação: o crescimento e a sofisticação das organizações criminosas locais.
Marcelo Gomes, mestre e doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP e pesquisador do Grupo de Investigações Periciais, Forenses e Tecnológicas (Perfort), destaca que, embora a fraude seja um fenômeno mundial, a forma como o crime organizado tem se inserido na atividade econômica legal é um diferencial marcante na região. “O primeiro diferencial que está acontecendo, principalmente nos países latino-americanos, é o crescimento das organizações criminosas locais. O que tem diferenciado é como ela tem se inserido na atividade econômica legal”, explica o especialista.
A Infiltração na Economia Formal
A estratégia dos grupos criminosos é astuta: eles começam utilizando empresas aparentemente legítimas, como franquias de perfumaria, lavanderias ou outros serviços que movimentam grandes volumes de dinheiro em espécie. A partir do faturamento dessas operações, o dinheiro é usado para adquirir outros negócios legais, como postos de gasolina e, em alguns casos, até mesmo fazendas de açúcar. Essa tática permite que o crime organizado adentre o mundo empresarial, contaminando setores cada vez maiores da economia.
A consequência é um prejuízo que vai além da fraude direta, afetando a competitividade e a integridade do mercado. Diante desse cenário, os departamentos de compliance das empresas – responsáveis por assegurar a conformidade legal e ética – enfrentam um desafio crescente para identificar e impedir que suas organizações façam negócios com entidades ligadas ao crime organizado. No Brasil, a experiência da Operação Lava Jato, por exemplo, contribuiu para a formação de equipes de compliance altamente qualificadas.
Sinais de Alerta para Empresas
Identificar a conexão com o crime organizado nem sempre é simples, mas há sinais claros. Gomes alerta para um dos principais indicadores: “Uma empresa que estava com uma dificuldade financeira, que o mercado inteiro conhecia, por exemplo, um fornecedor de plásticos para sua indústria, de repente começa a ter facilidade financeira e passa a oferecer os melhores preços, melhores que os concorrentes”.
A tentação de fechar negócio com um fornecedor que oferece condições excepcionais pode ser grande, mas o especialista adverte: “Tem que tomar um cuidado enorme, porque nem sempre o melhor preço é realmente é o melhor preço, em vista daquele novo fornecedor estar conectado ao crime organizado.” Preços muito abaixo do mercado, sem justificativa aparente, podem ser um indício de lavagem de dinheiro ou outras atividades ilícitas.
A Força do Compliance e Due Diligence
Para combater essa infiltração, as empresas dependem de métodos rigorosos de compliance. Um dos mais eficazes é o procedimento de due diligence, uma investigação aprofundada sobre a empresa, seus antecedentes e os de seus sócios, além das redes de relacionamento que mantêm. “O processo investiga até o terceiro nível de relação societária”, detalha Gomes.
Isso significa que, se a empresa X tem sócios A e B, a investigação não para por aí. Ela se estende para verificar se o sócio B, por exemplo, é também sócio da empresa Y e quais são as relações dessas empresas e seus sócios com terceiros. Esse rastreamento minucioso é crucial para garantir que a empresa está lidando com parceiros de negócios que não possuem qualquer conexão com o crime organizado, protegendo sua reputação, finanças e integridade.
Fonte: jornal.usp.br


