O Crescimento Global do Populismo: Entenda Como Crises Econômicas, Desconfiança Institucional e Redes Sociais Moldam a Política Mundial

O populismo, fenômeno político que ecoa em diversas latitudes, tem se consolidado como uma força transformadora no cenário global. Longe de ser uma anomalia, ele se manifesta como um sintoma ou, para alguns, uma doença que desafia a robustez das democracias contemporâneas. Segundo Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista e professor titular da USP, a compreensão de seu avanço requer uma análise crítica do nosso tempo.

Caracterizado por uma retórica que polariza “o povo puro” contra “a elite corrupta”, o populismo ataca instituições tradicionais como parlamentos, judiciário e imprensa. Ele oferece soluções simplistas para questões complexas e é frequentemente encarnado por uma liderança forte, carismática e, por vezes, autoritária. Esse padrão tem sido observado não apenas em países em desenvolvimento, mas também em democracias consolidadas, onde a expectativa seria de maior resistência a tais discursos. Dados internacionais indicam que o número de eleitores que se alinham com partidos populistas triplicou desde a década de 1990.

As Raízes do Descontentamento Populista

Diversos fatores se combinam para alimentar o crescimento populista. As crises econômicas e a crescente desigualdade são terrenos férteis. A crise financeira de 2008, seguida por políticas de austeridade, a precarização do trabalho e o aumento da disparidade de renda, deixaram milhões de cidadãos com a sensação de abandono pelo sistema econômico. Nesse contexto, promessas de “ruptura” e combate ao “sistema” ganham apelo. Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 e a inflação aceleraram a sensação de insegurança econômica, tornando os discursos simplistas ainda mais atraentes.

Paralelamente, a desconfiança nas instituições democráticas tem se aprofundado. A percepção de que partidos tradicionais são homogêneos, que políticos servem a interesses privados ou que a justiça é morosa e parcial, mina a legitimidade democrática. Neste vácuo, os populistas se apresentam como “antissistema”, mesmo quando almejam ou já ocupam o poder.

A Fragilização da Identidade e o Papel das Redes

Outro vetor importante é o receio de perda de identidade cultural, frequentemente explorado por movimentos populistas de direita. A imigração e a multiculturalidade são associadas a uma suposta ameaça aos valores nacionais. A globalização, com sua promoção da circulação de pessoas, bens e ideias, é pintada como uma força que dilui fronteiras e enfraquece a soberania. Assim, o populismo promete “recuperar o controle” – das fronteiras, da economia e da cultura.

As redes sociais também desempenham um papel crucial. Elas revolucionaram a forma como os cidadãos se informam e participam da política, permitindo acesso direto a líderes. No entanto, também se tornaram plataformas para a desinformação, o discurso de ódio e a polarização. Populistas, frequentemente hábeis comunicadores, exploram essas ferramentas para amplificar suas mensagens, contornar a mídia tradicional e atacar adversários sem filtros.

Populismos de Direita e Esquerda: Nuances e Consequências

Embora ambos compartilhem o apelo direto ao povo, a desconfiança nas instituições e a rejeição aos partidos tradicionais, populismos de direita e esquerda divergem em suas propostas. O populismo de direita, que ganha maior visibilidade na Europa e nas Américas, foca na identidade e na ordem. Já o populismo de esquerda, que denuncia elites econômicas e o neoliberalismo em busca de justiça social e redistribuição, tem mostrado um arrefecimento recente.

As consequências do populismo para a democracia são ambíguas. Por um lado, ele pode forçar o sistema a ouvir grupos marginalizados e corrigir excessos tecnocráticos. Por outro, fragiliza a democracia liberal ao atacar a separação de poderes, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias. Em regimes mais frágeis, líderes populistas no poder podem transitar para o autoritarismo, silenciando a oposição, controlando tribunais e alterando regras eleitorais, transformando a democracia em uma “casca institucional” com pouco conteúdo pluralista.

O caso de Portugal ilustra essa dinâmica, onde o partido Chega, antes marginal, cresceu ao capitalizar o descontentamento social com uma retórica populista, securitária e nacionalista, influenciando significativamente o discurso público.

Em síntese, o crescimento global do populismo não é uma aberração, mas uma resposta multifacetada às falhas reais das democracias contemporâneas. Desigualdade, insegurança, corrupção e desinformação servem como combustível constante para esse tipo de discurso. Para enfrentar o populismo, é preciso ir além da condenação moral, exigindo reformas institucionais, redução das desigualdades, promoção da literacia política e a restauração da dignidade da ação pública. Somente assim será possível abordar as angústias do presente sem comprometer os alicerces da democracia.

Fonte: jornal.usp.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *