Especialistas da Fiocruz e USP Defendem Urgente Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia Contra Crise Climática, Integrando Saberes Tradicionais e Natureza

Especialistas Defendem Reformulação de Sistemas de Saúde na Amazônia Diante das Mudanças Climáticas

Pesquisadores brasileiros, em um artigo publicado na revista “British Medical Journal”, alertam para a necessidade premente de reformular os sistemas de saúde na Amazônia. A proposta central é a criação de um modelo de adaptação orgânica que reconheça a floresta e os rios como participantes ativos nos processos de saúde e os povos tradicionais como guardiões de saberes essenciais para a sobrevivência e resiliência climática da região.

A Complexa Realidade Amazônica Exige Atenção Específica

Michele El Kadri, pesquisadora da Fiocruz de Manaus e uma das autoras do estudo, enfatiza a urgência de adaptar o sistema de saúde às particularidades da Amazônia. “A Amazônia e a região Norte do País como um todo ocupam uma enorme parte do território nacional e têm uma população muito diversificada, principalmente com grupos indígenas, entretanto, o Norte todo tem, por exemplo, menos municípios que o Estado de Minas Gerais”, explica. Ela ressalta a disparidade da realidade local em relação ao restante do Brasil, sublinhando a importância de políticas assertivas e condizentes com a diversidade territorial e cultural da região.

Impactos Devastadores das Mudanças Climáticas na Saúde Pública

A professora Gabriela Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), detalha os múltiplos impactos das alterações climáticas na saúde da Amazônia. Segundo ela, a crise climática afeta diretamente a segurança hídrica e alimentar, os meios de subsistência e a produtividade, agravando crises já existentes como a pobreza e as iniquidades sociais. Na Amazônia, a perda de cobertura vegetal e biodiversidade nas últimas duas décadas, impulsionada pela expansão agrícola e de estradas, ameaça profundamente tanto os modos de vida tradicionais quanto os urbanos.

Gabriela Di Giulio aponta para secas intensas que coincidem com temperaturas elevadas, queimadas e desmatamento, elevando os riscos de poluição do ar. A redução do volume dos rios durante as secas isola comunidades, dificultando o acesso a suprimentos, alimentos e medicamentos. Agricultores e pescadores sofrem prejuízos com a perda de plantações e a escassez de peixes, que afeta a renda e a alimentação. Além disso, as grandes cidades da região, muitas com infraestrutura urbana precária, tornam-se ainda mais vulneráveis. “A crise não só agrava esse contexto de perda de biodiversidade, mas também de sociodiversidade, minando o que chamamos dos princípios do bem-viver dessas populações, particularmente das populações indígenas, mas não só delas”, completa.

Caminhos para a Reformulação Sustentável do Sistema de Saúde

Michele El Kadri reforça que, mesmo as grandes cidades amazônicas, dependem intrinsecamente dos recursos naturais, especialmente os rios. Dessa forma, o Sistema Único de Saúde (SUS) deve considerar como qualquer alteração nesses elementos naturais pode impactar profundamente a vida de todos na região.

Integração de Saberes e Recursos: A Chave para o Futuro

Para tornar o sistema de saúde amazônico sustentável, Gabriela Di Giulio propõe a integração de diversos saberes. É fundamental combinar os campos da saúde pública, coletiva e global com os conhecimentos tradicionais e ancestrais de povos e comunidades locais. Além disso, a pesquisadora enfatiza a necessidade de sustentar essas estratégias adaptativas com recursos não apenas financeiros, mas também humanos, informacionais e tecnológicos. A COP30, segundo ela, foi um passo importante ao dar maior relevância à hibridização de saberes e à integração de conhecimentos, mas é crucial que essas discussões se traduzam em ações e estratégias concretas para a reformulação efetiva dos sistemas de saúde.

Fonte: jornal.usp.br

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