Pesquisa Alerta: Vírus Oropouche Ameaça Gestantes Brasileiras com Risco de Transmissão Vertical e Malformações Fetais, Revela Estudo da USP
A infecção, cujos sintomas se confundem com outras arboviroses, pode causar comprometimento neurológico grave no feto, abortos e óbitos. Não há tratamento antiviral específico e a doença se espalha pelo país.
Uma revisão abrangente de estudos científicos acende um sinal de alerta para a saúde de gestantes e bebês no Brasil: o vírus Oropouche, transmitido por insetos, emerge como um risco significativo. O levantamento destaca novas evidências de transmissão vertical – da mãe para o feto –, com a infecção de células placentárias e a possibilidade de graves comprometimentos neurológicos para o embrião e o feto. Entre as consequências apontadas estão abortos, anomalias congênitas e óbitos fetais e pós-natais.
Inicialmente mais presente nas regiões Norte e Nordeste, a febre do Oropouche tem mostrado maior incidência em estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro, evidenciando uma expansão geográfica preocupante. A pesquisa, que envolveu cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), foi publicada no artigo “Oropouche na gravidez: uma ameaça emergente à saúde materna e fetal”, na Revista de Medicina Materno Fetal e Neonatal.
Desafios no Diagnóstico e Acompanhamento
Um dos principais obstáculos no combate ao Oropouche é a semelhança de seus sintomas – dor de cabeça intensa, dores musculares, náusea e diarreia – com os de outras arboviroses comuns no Brasil, como dengue, chikungunya, febre amarela e zika. “A febre do oropouche pode ser erroneamente diagnosticada como outras infecções febris”, explica o médico e professor Geraldo Duarte, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e um dos pesquisadores envolvidos no estudo.
Essa confusão diagnóstica torna imperativa a inclusão do vírus nos protocolos dos sistemas de saúde para o diagnóstico diferencial em gestantes. O professor Duarte, que também atende gestantes de alto risco, enfatiza que a identificação correta é crucial para um acompanhamento adequado, com exames periódicos para monitorar possíveis complicações fetais e gestacionais, além de orientar estratégias de controle do vetor. A combinação de análise de sintomas, histórico epidemiológico e exames laboratoriais é essencial, especialmente em gestantes infectadas, que necessitam de acompanhamento em serviços integrados com diferentes especialidades.
Atualmente, não existem medicamentos antivirais específicos para o tratamento do Oropouche, o que reforça a necessidade de um bom manejo clínico. Para auxiliar profissionais de saúde, a Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), em parceria com o Ministério da Saúde, elaborou o “Manual de prevenção, diagnóstico e manejo da febre do oropouche durante a gravidez, parto e puerpério”, com autoria do professor Duarte e outros pesquisadores.
Impacto Severo na Gestação e no Feto
O vírus Oropouche é transmitido principalmente pelo mosquito pólvora ou maruim (C. paraensis) e, mais raramente, por pernilongos do gênero Culex. Embora os efeitos da infecção na gestação ainda estejam em fase inicial de compreensão, a prática clínica e exames laboratoriais já indicam que o vírus é capaz de infectar células da placenta, alcançar o feto e comprometer seu sistema nervoso central.
Um estudo de revisão, publicado em uma revista espanhola, relatou casos alarmantes de gestantes infectadas pelo Oropouche que resultaram em abortos espontâneos e natimortos. Nesses casos, amostras da placenta e do sangue do cordão umbilical testaram positivo para Oropouche e negativo para outros arbovírus. O mesmo estudo também descreveu quatro casos de recém-nascidos com microcefalia, nos quais o líquido cefalorraquidiano apresentou anticorpos contra o vírus Oropouche, sem evidências de infecção por outros arbovírus.
No Laboratório de Patogênese Viral do Centro de Pesquisa em Virologia da FMRP, o professor Eurico de Arruda Neto coordena uma equipe que investiga como o vírus consegue infectar o feto durante a gestação. A placenta, que atua como barreira natural contra muitas infecções virais, pode ser driblada pelo Oropouche. Pesquisas indicam que pequenos fragmentos do material genético do vírus (RNAs) podem desempenhar um papel crucial nesse processo, e a equipe busca identificar os mecanismos exatos envolvidos.
Expansão Geográfica e Resposta Necessária
O vírus Oropouche foi isolado no Brasil pela primeira vez em 1960. No ciclo de transmissão urbana, os seres humanos se tornam o principal reservatório do vírus. Dados do Ministério da Saúde revelam uma crescente preocupação: o Brasil registrou 13.801 casos confirmados e duas mortes em 2024. Até junho de 2025, já foram contabilizados mais 11.706 casos. Os estados com maior incidência incluem Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) também publicou uma atualização em agosto de 2025 sobre a febre Oropouche nas Américas, divulgando dados de 20 estados brasileiros, com destaque para Espírito Santo (6.322 casos) e Rio de Janeiro (2.497 casos), além de cinco mortes e casos de complicações neurológicas e óbitos fetais sob investigação.
Diante da expansão do vírus e das crescentes evidências de transmissão vertical e potenciais impactos neurológicos graves em fetos e recém-nascidos, o professor Duarte ressalta a urgência de fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar o diagnóstico laboratorial e integrar o acompanhamento de gestantes nos serviços de saúde. A inclusão do Oropouche nos protocolos clínicos, juntamente com ações de controle dos vetores e capacitação de profissionais, é considerada essencial para reduzir os riscos maternos e fetais neste cenário de aumento de casos e ausência de tratamento antiviral específico.
Fonte: jornal.usp.br
