Rubens Junqueira Villela: A Fascinante Jornada do ‘Dr. Trovão’, Pioneiro da Meteorologia Brasileira e Primeiro a Pisar no Polo Sul
Professor aposentado do IAG/USP, falecido aos 95 anos, teve uma vida marcada por curiosidade insaciável, aventura e contribuições cruciais para a ciência do clima e o Programa Antártico Brasileiro.
No dia 21 de janeiro de 2026, a ciência brasileira perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas: Rubens Junqueira Villela, professor aposentado do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP, que faleceu aos 95 anos. Conhecido carinhosamente como “Dr. Trovão” por seus familiares, Villela deixou um legado que transcende a meteorologia, abraçando a aventura, o pioneirismo e uma paixão inabalável pelo conhecimento.
Da Fascinação pelo Rádio ao Desafio das Montanhas Rochosas
Nascido em São Paulo em 1930 e criado na Fazenda Belo Horizonte, em Cristais Paulista, Rubens Junqueira Villela teve sua curiosidade despertada ainda na infância. Aos 13 anos, ao ganhar um rádio comunicador, descobriu a radiotelegrafia, um universo de navegação e exploração que o cativou. Tornou-se radioamador e radiotelegrafista profissional, dominando o código Morse e aprendendo línguas como o russo, muitas vezes buscando respostas na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, enquanto cursava o colegial no Colégio São Luís.
Seu interesse inicial por telecomunicações o levou a tentar Engenharia Eletrônica na Escola Politécnica, mas a ansiedade o impediu de ser aprovado. Contudo, a persistência o guiou aos Estados Unidos, onde cursou a Colorado School of Mines e, posteriormente, Engenharia Elétrica na Universidade de Maryland. Foi lá que uma disciplina optativa de Meteorologia, oferecida pelo Departamento de Geografia, acendeu uma paixão imediata. Em 1953, ingressou na Florida State University (FSU), formando-se meteorologista em 1957.
Durante a década de 1950, Villela trabalhou em postos de escuta do governo americano, no US Weather Bureau e em centros de estudos de furacões. Suas aventuras incluíam incursões de barco à vela no rio Potomac, uma delas resultando em um capote noticiado pelo Washington Post sob o título “Cold Dunk in the Potomac”. Na FSU, seu conhecimento em radiotelegrafia e propagação de sinais de rádio em tempestades surpreendia até os professores mais experientes.
O Pioneirismo na Antártida: Do Quebra-Gelo ao Polo Sul
Desde a infância, Villela nutria o sonho de conhecer a Antártida. Acompanhando as missões do Almirante Byrd desde os anos 1940, começou a se corresponder com autoridades americanas, publicando artigos sobre a importância das frentes frias antárticas para o clima brasileiro. Em dezembro de 1960, recebeu um convite para integrar a tripulação do navio quebra-gelo USS Glacier na Operação Deep Freeze, com destino à Costa de Eights, no Mar de Ross, para exploração e mapeamento de uma região desconhecida.
A viagem, que durou até abril de 1961, foi repleta de desafios, incluindo quedas de helicóptero e dias presos no gelo. Além de meteorologista e pesquisador, Villela atuou como repórter do jornal Folha de S.Paulo e correspondente do CNPq e da National Science Foundation dos EUA, produzindo um dos primeiros relatórios científicos brasileiros sobre a Antártida. Um marco foi sua participação em um dos desembarques mais complexos, na Baía do Almirantado, em frente à Ilha Rei George, local onde, décadas depois, seria implantada a primeira base antártica brasileira, a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF).
O convite mais significativo veio em novembro de 1961, do próprio Almirante Dufek, para integrar a Operação Deep Freeze II, rumo ao Polo Sul. Em 17 de novembro de 1961, a bordo de um Hércules C-130, o Dr. Trovão se tornou o primeiro brasileiro a pisar no extremo austral do planeta. No Polo, observou a marcação rudimentar do ponto exato com barris de óleo e uma “mina de gelo” de 28 metros de profundidade na estação Amundsen-Scott, evidenciando seu entusiasmo em uma foto em que parecia querer “mergulhar” no gelo. Essas expedições também o fizeram perceber a importância do alpinismo para os estudos antárticos, contribuindo para a fundação e desenvolvimento do Clube Alpino Paulista, hoje um pilar de apoio ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
Entre Revoluções e a Academia: O Legado na USP e o Proantar
No início da década de 1960, de volta ao Brasil, Rubens Villela estagiou no Goddard Space Flight Center (futura NASA), onde aprofundou seus conhecimentos em Aeronomia e consolidou sua identidade como “meteorologista troposférico”. Desenvolveu sua paixão pelo voo à vela, tornando-se piloto de planador e previsor do tempo em competições, além de escrever para a Revista Aeromagazine e o Correio Agropecuário, onde se aproximou de grandes nomes como Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro e Aziz Nacib Ab’Sáber.
Seu interesse pela Antártida crescia, assim como a ideia de um programa antártico brasileiro. Após esforços e contatos, incluindo um agendamento com o então presidente Jânio Quadros, a renúncia presidencial e o golpe militar de 1964 desviaram seus planos. Em 1966, desembarcou em Cuba para lecionar no Instituto de Meteorologia de Havana, vivendo de perto a revolução e constatando a importância dada ao clima naquele país.
Após um período na Europa, incluindo as manifestações de maio de 1968 em Paris e um trabalho como freelancer para a BBC News em Londres, Villela retornou ao Brasil em 1971, atuando em consultoria agrícola. Estreitou laços com a USP, especialmente com o Instituto Oceanográfico (IO) e o Instituto de Geociências (IGc), participando de viagens de pesquisa a bordo do navio oceanográfico Prof. Wladimir Besnard. Foi nessa embarcação que, em 1982/1983, ele inauguraria o Proantar, indo às Ilhas Shetlands do Sul e Península Antártica.
Em 1974, a convite do professor Giorgio Giacaglia, ingressou no IAG da USP, lecionando Meteorologia Básica, Sinótica e Operacional. Nas décadas de 1970 e 1980, conciliou a vida acadêmica com serviços adicionais para empresas como Hidroservice, Embraer e o jornal O Estado de S. Paulo. Seu mestrado, desenvolvido no final dos anos 70, sobre a implantação de um aeroporto na Ilha da Madeira, demonstrou sua sagacidade ao contrariar interesses comerciais e indicar um projeto mais adequado às condições atmosféricas, posteriormente comprovado.
Com o início das operações brasileiras na Antártida, Villela intensificou suas incursões, realizando nove viagens ao continente austral pelo Proantar, a bordo de navios como o Besnard, Barão de Teffé e Ary Rongel. Em uma dessas viagens, conheceu Jacques-Yves Cousteau. Em 1990/1991, integrou a tripulação do veleiro Rapa Nui, projeto de apoio à invernagem antártica de Amyr Klink, que o considerava um cientista “pinguináceo”. Essa aventura incluiu uma costela quebrada em Ushuaia e um capote no turbulento Estreito de Drake, com ondas de mais de 10 metros, que não o impediram de seguir viagem.
A Visão Empírica e Interdisciplinar do ‘Dr. Trovão’
Um aspecto marcante do trabalho do professor Villela era sua criatividade e sua abordagem empírica. Antes de consultar cartas de superfície ou imagens de satélite, a observação do céu era seu ponto de partida. Essa metodologia o levou a trabalhos diversos, como a previsão de condições meteorológicas e de ondas para emissários de esgoto em cidades como Praia Grande (SP), Rio de Janeiro e Salvador (BA).
Foi também consultor da Fundação Cacique Cobra Coral, realizando previsões que iam desde encomendas do governo iraquiano para “chover no deserto” até a garantia de tempo bom para eventos como o Rock in Rio. Sua mente inquieta e “não comportada” o levou a se interessar pela ufologia, buscando entender trajetórias de OVNIs que desafiavam as leis da física. Em suas palestras, ele costumava dizer: “Como nos ensinam Joseph Campbell e os antropólogos que estudam os mitos e a pajelança, religião, magia e ciência têm muito em comum!” Embora não tenha havido tempo para publicar um livro pela Edusp, sua vida é retratada em capítulos de obras como “Endurance 64 – Na Antártica e Outras Histórias Austrais”, de Cícero Augusto Vieira Neto.
Para a Geografia, seu pai nutria uma atenção especial, influenciando a carreira de seu filho, Fernando Nadal Junqueira Villela, professor da FFLCH/USP. Ele valorizava as ciências situadas na “zona de conflito”, a fronteira interdisciplinar que, segundo ele, era crucial para encontrar soluções para problemas locais e globais. “Conheça bem a geografia, ‘namore’ sempre os mapas; tão grande é a interação entre a superfície do globo e a atmosfera, que a geografia pode ser um caminho alternativo para a formação do meteorologista”, aconselhava. Rubens Junqueira Villela fluiu como um verdadeiro jet stream, deixando um rastro de conhecimento e inspiração que continuará a mover as gerações futuras da ciência brasileira.
Fonte: jornal.usp.br
