Em 2026, a memória de Paula Beiguelman, Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, será celebrada com a marca de 100 anos de seu nascimento. Uma figura central na reescrita da história das ciências sociais no Brasil, Paula é homenageada em uma coluna emocionante por sua sobrinha, Giselle Beiguelman, que destaca não apenas seu impacto acadêmico, mas também o profundo afeto e a inspiração que ela representou em sua vida pessoal e de suas irmãs.
Uma Trajetória Marcada Pela Ditadura
A vida de Paula Beiguelman foi intrinsecamente ligada aos turbulentos anos da ditadura militar brasileira. Em 1968, ela testemunhou a invasão da Maria Antônia e, posteriormente, foi presa e cassada pelo Ato Institucional Número 5 (AI-5), ao lado de outros vinte docentes. A aposentadoria compulsória imposta pelo regime não apagou seu legado, mas sim ressaltou sua resiliência e a perseguição que muitos intelectuais sofreram em defesa da liberdade de pensamento e ensino.
A Luta Contra Assimetrias de Gênero e Classe
Um artigo do professor Dimitri Pinheiro, publicado pela revista Pagu da Unicamp, ilumina as complexas relações entre disputas acadêmicas e assimetrias de gênero na institucionalização das ciências sociais em São Paulo. Analisando as trajetórias de pioneiras como Gilda de Mello e Souza, Gioconda Mussolini, Maria Isaura Pereira de Queiroz e Paula Beiguelman, o estudo aponta Paula como o caso mais extremo onde as assimetrias de gênero se aprofundaram nas de classe. Judia, filha de imigrantes poloneses de um bairro operário de Santos, Paula chegou à FFLCH sozinha, morando em pensionato e trabalhando para se manter e estudar em um ambiente onde as aulas eram ministradas integralmente em francês, um contexto de desafios muito diferente de suas contemporâneas.
O Legado de Inclusão e Permanência
A história de Paula Beiguelman ressoa fortemente com as conquistas sociais e acadêmicas atuais. As lutas por inclusão, permanência, mérito, e o avanço de movimentos sociais e estudantis que culminaram na adoção de cotas e no nascimento da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da USP, refletem a superação de barreiras que Paula enfrentou. Sua vida é um testemunho da importância de políticas que buscam equidade e representatividade, um futuro que ela, à sua maneira, ajudou a pavimentar.
A homenagem de Giselle Beiguelman, transmitida na coluna “Ouvir Imagens” da Rádio USP, é um lembrete afetuoso e poderoso da professora que, com resistência e dedicação, deixou uma marca indelével na academia e na vida de muitos. “Aquele abraço, Paulushka”, ecoa como um tributo à sua coragem e ao seu inestimável legado.
Fonte: jornal.usp.br


