Um avanço significativo na compreensão da apneia obstrutiva do sono (AOS) foi alcançado por pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP. O estudo revelou que alterações na microcirculação sanguínea do tecido muscular da faringe de pacientes jovens e não obesos estão diretamente ligadas à gravidade da doença. Essa descoberta pode ser crucial para aprimorar o manejo da apneia, visando prevenir complicações cardiovasculares e cerebrais antes que se manifestem.
A apneia do sono é um distúrbio respiratório caracterizado pelo estreitamento frequente das vias aéreas superiores durante o sono, levando à redução da ventilação pulmonar, queda nos níveis de oxigênio no sangue e despertares recorrentes. Segundo Kristine Fahl, primeira autora do artigo publicado na Scientific Reports, do grupo Nature, essa condição está fortemente associada a problemas como hipertensão, arritmias, doenças coronarianas, AVC, além de déficits neurocognitivos e até doenças neurodegenerativas.
O Que a Microcirculação Revela?
Os pesquisadores observaram um espessamento das paredes dos vasos sanguíneos, caracterizado como hipertrofia externa, nos pacientes com apneia. Essa mudança sugere uma possível adaptação à progressão da doença e indica um provável fluxo sanguíneo “caótico” durante o sono. A microcirculação, uma rede complexa de vasos sanguíneos de pequeno diâmetro, é vital para o transporte de oxigênio e nutrientes, além de influenciar a pressão arterial.
A escolha de focar em pacientes não obesos foi estratégica, como explica Kristine Fahl, para isolar os efeitos específicos da apneia. A obesidade, por si só, já é conhecida por causar inflamação e disfunção endotelial, o que poderia confundir os resultados. O estudo analisou 39 pacientes, com idades entre 19 e 55 anos e Índice de Massa Corpórea (IMC) abaixo do patamar considerado para obesidade.
Adaptação e Sinais de Alerta Precoce
A análise morfométrica de 319 arteríolas (pequenas artérias) revelou que pacientes com apneia grave apresentavam paredes mais espessas em comparação com aqueles com apneia leve. Curiosamente, essa remodelação para fora, ou excêntrica, preserva o espaço interno dos vasos sanguíneos – uma característica também vista em condições adaptativas como gravidez e treinamento físico. O mais relevante é que esse processo ocorre antes mesmo da detecção de marcadores de disfunção endotelial, oferecendo um sinal de alerta precoce.
As complicações da apneia, como disfunção endotelial, rigidez arterial e inflamação, são impulsionadas pelas oscilações de oxigênio, fragmentação do sono e variações de pressão. A descoberta sugere que a monitorização da microcirculação pode se tornar uma ferramenta importante para identificar a progressão da doença em estágios iniciais.
Implicações para o Tratamento e Saúde Pública
Kristine Fahl enfatiza que as mudanças na pressão das vias aéreas superiores e a oscilação do fluxo sanguíneo nas artérias durante o sono estão intrinsecamente ligadas a essas alterações microcirculatórias. Isso reforça a urgência de tratar a apneia para mitigar a progressão das disfunções e prevenir o surgimento de condições cardiovasculares, como a hipertensão arterial, antes mesmo de se manifestarem.
Os pesquisadores esperam que esta descoberta estimule a elaboração de novos estudos para gerar evidências robustas. Em um futuro próximo, essas evidências poderão embasar o desenvolvimento e aprimoramento de políticas públicas de saúde, além de uma linha de cuidado abrangente para o tratamento dos distúrbios de sono no Sistema Único de Saúde (SUS).
O trabalho contou com a participação de diversos pesquisadores da FMUSP e do Instituto do Coração (Incor), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Fonte: jornal.usp.br


