O Fascínio Pelos Dados do Sono
Com a crescente popularidade de dispositivos como Apple Watch, Fitbit e Oura Ring, a monitorização do sono tornou-se acessível a muitos. Estes wearables registam movimentos e frequência cardíaca durante o repouso, utilizando algoritmos para determinar os períodos de sono e estimar as suas fases. Daniel Forger, professor de Matemática na Universidade de Michigan e investigador em wearables do sono, explica que, embora os algoritmos das principais marcas sejam precisos na identificação do sono, a determinação exata das fases, como o sono REM e não REM, é mais rigorosa em estudos de laboratório.
Tendências vs. Diagnóstico Definitivo
Chantale Branson, neurologista e professora na Morehouse School of Medicine, observa que muitos pacientes chegam com dados de monitores de sono, focando-se em métricas específicas de uma noite. Ela enfatiza que estes dispositivos são mais úteis para identificar tendências ao longo do tempo, e não devem ser considerados um diagnóstico definitivo da saúde do sono. A especialista desaconselha a atribuição de importância a dados de uma única noite, sugerindo que o foco deveria estar na identificação das causas subjacentes à má qualidade do sono, algo que os wearables não fazem.
Higiene do Sono: A Base Essencial
Branson recomenda que o tempo e a energia dedicados a analisar as estatísticas de sono matinais sejam canalizados para a prática da “higiene do sono”. Isto inclui a criação de rotinas relaxantes antes de dormir, a evitação de ecrãs e a garantia de um ambiente propício ao descanso. Para aqueles preocupados com o sono, a consulta com um clínico é aconselhada antes de investir em tecnologia.
O Potencial Positivo dos Wearables
Por outro lado, Forger vê um potencial significativo nos dispositivos, ajudando a manter a importância do sono em evidência. Ele recomenda os wearables mesmo para quem não tem problemas de sono aparentes, pois podem oferecer insights valiosos para otimizar rotinas e melhorar o estado de alerta diurno. A sincronização do relógio biológico é um benefício chave, pois dormir o tempo correto, mas nas horas erradas, pode comprometer a eficiência do descanso.
Transformando Dados em Hábitos Saudáveis
Kate Stoye, professora, partilha a sua experiência positiva com o Oura Ring. Ela utilizou o dispositivo para identificar a correlação entre o consumo de álcool e a piora da qualidade do sono, levando-a a reduzir a ingestão. Da mesma forma, percebeu que comer tarde à noite afetava o seu descanso, reforçando a necessidade de ajustar os seus hábitos alimentares. Para Stoye, o anel tornou-se uma ferramenta de autoconhecimento e de reforço de bons hábitos.
O Lado Sombrio da Monitorização: Ortossónia
No entanto, a obsessão com os dados pode ter um efeito contraproducente. Mai Barreneche, profissional de publicidade, relata ter desenvolvido ansiedade devido à sua fixação em obter boas pontuações noturnas, um fenómeno que os investigadores chamam de “ortossónia”. Após um período sem usar o seu Oura Ring durante uma viagem, ela percebeu que manteve os bons hábitos adquiridos, mas sem o stress associado à monitorização constante. Branson confirma ter observado esta ansiedade em pacientes, especialmente quando há comparações entre amigos ou metas de sono específicas. Ela reitera que, se o dispositivo causa ansiedade, é crucial procurar ajuda profissional.
O Futuro Promissor dos Wearables de Saúde
Forger acredita que o potencial dos wearables ainda está subestimado. Investigações futuras podem permitir que estes dispositivos detetem infeções precocemente, antes do aparecimento de sintomas, ou identifiquem alterações nos padrões de sono que possam indicar o início de depressão ou risco de recaída. A monitorização dos ritmos e da arquitetura do sono poderá, em geral, melhorar a qualidade de vida, especialmente em comunidades com acesso limitado a cuidados de saúde, onde os wearables podem facilitar a deteção e monitorização remota de problemas de saúde.
Fonte: pt.euronews.com


