Crescimento de Periódicos Predatórios no Brasil: Pressão por Produtividade e Falta de Treinamento Ameaçam Integridade Científica, Alerta Estudo da USP

Convites insistentes como “Seu artigo foi selecionado”, “Publicação em 48 horas” ou “Submeta agora” são cada vez mais comuns na caixa de e-mails de pesquisadores brasileiros. Longe de serem um reconhecimento exclusivo, essas mensagens frequentemente marcam o primeiro contato com um mercado em franca expansão: o dos periódicos predatórios. Essas revistas, que prometem agilidade, na verdade publicam artigos científicos sem a devida revisão por pares, comprometendo a integridade e a confiabilidade da pesquisa.

Um mapeamento detalhado, publicado em artigo no prestigiado periódico internacional Scientometrics, revela o avanço alarmante desse fenômeno no Brasil. A pesquisa, liderada pelo engenheiro de computação Fábio Manoel França Lobato, atualmente professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos, teve sua gênese em uma experiência pessoal. Durante seu mestrado, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Lobato, por desconhecimento do problema, acabou publicando em uma dessas revistas. Anos depois, já como professor e coordenador de Projetos de Pesquisa na mesma universidade, percebeu que o problema não era isolado, mas uma armadilha em que muitos colegas estavam caindo. Essa constatação o levou a questionar: “Como está isso no Brasil todo?”

A Cultura da Produtividade e Seus Impactos na Ciência

A resposta foi construída ao longo dos últimos seis anos, período em que o Brasil registrou um aumento vertiginoso nesse tipo de publicação. Para o docente, isso ocorre como resultado direto da cultura prevalente no meio acadêmico. “Existe uma pressão muito grande para a comunidade publicar, seja para ascender profissionalmente, permitir a defesa de uma tese ou pontuar em concursos”, explica o professor Lobato. Essa demanda por quantidade, muitas vezes em detrimento da qualidade, cria um terreno fértil para a proliferação desses periódicos.

Os prejuízos decorrentes dessa prática são profundos e abrangentes. Para a ciência como um todo, o maior risco é a proliferação de comunicações sem o rigor científico necessário ou com falhas metodológicas graves, o que pode distorcer o conhecimento e atrasar o avanço. Para o pesquisador individual, o preço é a reputação. “A ciência vive de confiabilidade”, ressalta Lobato, alertando para o dano irreparável que a associação a essas publicações pode causar à trajetória profissional e à credibilidade acadêmica.

Quem São os Mais Vulneráveis e Por Quê?

Para desenvolver o diagnóstico, os autores automatizaram o disparo de questionários para secretarias de pós-graduação de todo o País e cruzaram as respostas com os IDs do Currículo Lattes dos participantes. A análise dos dados de mais de 3 mil pesquisadores brasileiros trouxe um resultado contraintuitivo. Ao contrário do que se poderia esperar, não foram apenas os jovens pesquisadores, em início de carreira, os mais suscetíveis ou preocupados com os custos e impactos dessas publicações, mas sim os mais seniores.

Uma das hipóteses para esse comportamento, e para a maior vulnerabilidade detectada em instituições federais, reside nos critérios de progressão de carreira no Brasil, que muitas vezes priorizam o volume quantitativo de artigos em detrimento de uma avaliação qualitativa do impacto real da pesquisa. Além disso, o estudo apontou para uma assimetria regional e estrutural. Programas de pós-graduação menores e localizados fora dos grandes centros de excelência frequentemente sofrem com a sobrecarga de trabalho dos docentes, o que sufoca o debate sobre a integridade científica e a devida orientação aos pesquisadores. “Nós não podemos cobrar se não ensinamos. É preciso uma campanha nacional de sensibilização, envolvendo as agências de fomento”, defende o professor do ICMC, que contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Como Identificar e Evitar Periódicos Predatórios

Para auxiliar a comunidade acadêmica a navegar nesse cenário complexo, o artigo apresenta algumas dicas cruciais para evitar cair em periódicos predatórios. O primeiro alerta é que esses periódicos costumam reproduzir em seus sites uma suposta política editorial robusta e afirmam estar indexados em diversas bases de dados. No entanto, muitas dessas indexações são inexistentes, falsas ou, mesmo quando reais (como já ocorreu com o Directory of Open Access Journals), não garantem, por si só, a credibilidade do periódico.

Outro indício é a promessa de publicação extremamente rápida, geralmente associada à cobrança de uma taxa de processamento do artigo (APC). Essas taxas costumam ser inferiores às praticadas por editoras internacionais. No Brasil, por exemplo, é comum encontrar valores entre R$ 400 e R$ 500, o que pode ser um atrativo. Por fim, o envio frequente e insistente de convites para publicação, muitas vezes de forma excessiva e sem qualquer relação com a área de atuação do pesquisador após a divulgação de um artigo, é um comportamento característico.

Novos Desafios: A Era da Inteligência Artificial

A pesquisa, cujas respostas dos pesquisadores de todo o Brasil foram recebidas entre 2021 e 2022, antecedeu a explosão das ferramentas generativas de Inteligência Artificial (IA), como o ChatGPT. Lobato alerta que o avanço tecnológico adiciona uma nova camada de complexidade ao problema. “Ficou muito mais fácil escrever um artigo e simular uma pesquisa. Com a IA generativa, pessoas conseguem fazer ideação e construir textos bem estruturados, mas sem necessariamente ter o domínio do rigor científico, útil para a sociedade”, pondera.

Recém-contratado pela USP e integrado ao Laboratório de Inteligência Computacional (Labic), o professor Lobato, que construiu sua trajetória acadêmica pesquisando justamente IA e Sistemas de Informação, planeja usar o peso institucional da Universidade para transformar as discussões sobre revistas predatórias em um projeto de extensão. “Quero levar essa discussão adiante. Já que o ICMC é um centro de excelência que tem voz, quem sabe a gente consiga fazer esse trabalho de alertar a comunidade acadêmica”, finaliza. O estudo, conduzido em uma lógica de “slow science” desde 2020, com aprovação em Comitê de Ética, curadoria e análise rigorosa dos dados, foi desenvolvido em parceria com a professora Solange Rezende, também do ICMC, além de outros pesquisadores. O artigo Predatory publishing in the academic landscape: researchers’ awareness and vulnerabilities está disponível online, e mais informações sobre o Labic podem ser obtidas em seu site.

Fonte: jornal.usp.br

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