O icônico edifício Copan, que completa 60 anos, transcende sua arquitetura para se consolidar como um símbolo da vida urbana e da história de São Paulo. Assim como outros monumentos públicos, ele se conecta com os paulistanos, atravessa tempos e incentiva a reflexão crítica sobre o passado e o presente da cidade. No entanto, a capital paulista tem testemunhado uma crescente restrição ao acesso a esses espaços históricos, comprometendo sua função de estimular o pensamento crítico e a revisão histórica. Fraya Frehse, professora associada de Sociologia da USP, aponta que essa situação tem se agravado devido à postura do governo municipal, que prioriza o ‘consumo da cidade para alguns apenas’.
O Que Define um Monumento?
A concepção de monumento evoluiu ao longo do tempo. Na era pré-moderna, esses objetos celebravam fatos ou personagens históricos de grande relevância. Contudo, para o pensador francês Henri Lefebvre, monumentos são intrinsecamente ‘obras do poder’, criadas por aqueles que detêm o controle político. Apesar dessa origem desigual, a professora Frehse ressalta que eles têm a capacidade de despertar reações e questionamentos. ‘Mesmo representando essas relações de poder, eles chamam a atenção. Nós os estranhamos, são diferentes do que estamos acostumados. É justamente nesse momento, segundo Lefebvre, que existe uma centelha de possibilidade crítica importante’, explica.
História Viva e Ativismo Crítico
Com cerca de 400 monumentos e obras de arte catalogadas em logradouros públicos, São Paulo possui um vasto acervo que evoca memórias e discussões. A escultura ‘Mãe Preta’, de Júlio Guerra (1955), no Largo do Paiçandu, por exemplo, emociona e remete ao passado escravista do Brasil, provocando uma mudança de postura e pensamento. As contradições inerentes a esses objetos também fomentam o questionamento e o ativismo. Movimentos antirracistas têm, globalmente, questionado figuras escravocratas em monumentos, como ocorreu com a estátua do ex-bandeirante Borba Gato, incendiada em julho de 2021 no bairro de Santo Amaro. Para Frehse, essas perguntas – ‘onde eu moro não tem isso?’, ‘por que o monumento está aqui e não em outro lugar?’ – são fundamentais para o pensamento crítico.
O Risco do Apagamento Histórico e a Privatização
Embora compreenda as causas dos movimentos ativistas, a professora Fraya Frehse discorda da destruição de monumentos, argumentando que isso ‘acaba contribuindo para o apagamento histórico intensificado pelo governo da cidade’. Ela defende a crítica ao que o monumento representa e à sua história, em vez de sua remoção. A história de São Paulo já é marcada por apagamentos, como o do presídio do Carandiru, demolido em 2002 após o massacre de 1992 para dar lugar ao Parque da Juventude, sem qualquer vestígio do passado. Paralelamente, a privatização tem transformado espaços públicos, incluindo parques e monumentos, em ‘shopping centers’, acessíveis apenas a ‘grupos que têm dinheiro’. Frehse lamenta ‘dez anos ininterruptos de dilapidação do potencial de convivência pública e urbana dos nossos espaços públicos’.
Tecnologia como Aliada e o Papel do Poder Público
Diante da justificativa de modernização e altos custos para a privatização, a tecnologia surge como uma alternativa para valorizar os monumentos sem necessariamente recorrer à iniciativa privada. Novas ferramentas e métodos científicos podem auxiliar na conservação e na disseminação de informações, como totens interativos. Contudo, a professora ressalta a importância de um uso controlado para não comprometer a autenticidade e o potencial crítico dos monumentos. ‘Tudo que a tecnologia puder fazer, como instrumento para valorizar e potencializar esse papel pedagógico e potencialmente emancipatório dos monumentos, é bem-vindo. Mas tudo depende de uma concepção de fundo do poder público’, conclui Frehse, enfatizando que o caráter emancipatório e educador dos espaços públicos é crucial para a convivência e a geração de mudanças na cidade.
Fonte: jornal.usp.br
