Desvendando o xenocentrismo: Pesquisa da USP revela como a ciência pode elevar a percepção e o consumo dos bons vinhos brasileiros

Apesar de colecionarem prêmios internacionais e ostentarem qualidade reconhecida, os vinhos brasileiros ainda enfrentam um desafio persistente no mercado interno: a percepção de que rótulos estrangeiros são inerentemente superiores. Uma pesquisa recente da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com a Universidade do Michigan (EUA), lança luz sobre esse fenômeno, conhecido como “xenocentrismo do consumidor”, e oferece insights sobre como a ciência pode transformar essa realidade.

O estudo, publicado na revista científica Psychology & Marketing, demonstrou que fornecer informações detalhadas sobre as características físico-químicas e sensoriais dos vinhos nacionais é eficaz em reduzir o preconceito automático contra eles. Contudo, essa mudança na percepção não se traduz, de imediato, em um aumento da intenção de compra, revelando a complexidade por trás da escolha do consumidor.

Entendendo o ‘Xenocentrismo do Consumidor’

O professor de Marketing da EACH-USP e coautor da pesquisa, Mateus Manfrin Artêncio, explica que o xenocentrismo é a tendência de valorizar produtos estrangeiros apenas por sua origem, tomando-os como referência de qualidade. “Em países emergentes como o Brasil, essa percepção é frequentemente mais intensa e pode ser explicada pela Teoria da Justificação do Sistema, onde fatores históricos e culturais levam à valorização do que vem de fora”, afirma Artêncio.

No contexto do vinho, a origem estrangeira muitas vezes funciona como um símbolo de riqueza, sofisticação e ascensão social. Essa associação confere ao consumidor uma sensação de superioridade social, influenciando a decisão de compra mesmo diante de evidências de qualidade nacional.

A Ciência Revela a Qualidade Nacional

Para o estudo, Álvaro Luís Lamas Cassago, primeiro autor do artigo e responsável pela caracterização laboratorial, utilizou vinhos Syrah produzidos em Ribeirão Preto (SP). Ele aplicou a metabolômica, uma técnica avançada que identifica e quantifica centenas de compostos químicos presentes no vinho, como polifenóis, açúcares e ácidos orgânicos. Essa análise permite não só verificar a origem geográfica (o ‘terroir’), mas também determinar características sensoriais essenciais como aroma, cor e corpo da bebida.

Em um experimento, homens e mulheres entre 18 e 60 anos foram submetidos a questionários para medir seu grau de xenocentrismo. Em seguida, receberam informações científicas que indicavam a superioridade das características químicas e sensoriais do vinho brasileiro em comparação a um vinho francês. Após a exposição a esses dados, os participantes avaliaram os vinhos e expressaram sua intenção de compra.

O Dilema: Reconhecimento sem Compra

Os resultados foram claros: o acesso às informações científicas reduziu significativamente a preferência automática pelos rótulos importados, alterando a percepção da qualidade do produto nacional. No entanto, essa mudança não foi suficiente para impulsionar a intenção de compra do vinho brasileiro.

Cassago explica que isso sugere que atributos simbólicos como prestígio e status social, fortemente associados aos vinhos importados, continuam a exercer uma influência poderosa sobre o consumidor. Mesmo reconhecendo a qualidade do produto nacional, o desejo de ostentar um símbolo de status pode prevalecer.

Caminhos para Fortalecer o Vinho Brasileiro

Para os pesquisadores, o estudo abre um caminho estratégico para produtores e profissionais de marketing. A divulgação de evidências científicas sobre a qualidade dos vinhos brasileiros, apoiada por validação de especialistas, pode ser uma ferramenta poderosa para reduzir o impacto do xenocentrismo e fortalecer a imagem dos produtos nacionais. Além disso, a metabolômica, que já autentica a origem dos rótulos, tem potencial para diferenciar ainda mais os vinhos brasileiros no mercado, aumentando sua competitividade.

A expectativa é que, ao investir em comunicação baseada em dados científicos e endosso de especialistas, a credibilidade dos vinhos brasileiros cresça, pavimentando o caminho para um maior reconhecimento e valorização no mercado nacional e internacional.

Fonte: jornal.usp.br

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