Quem Mais Sofre com Picadas de Cobras no Brasil? Estudo Inédito Revela Perfil de Risco e Desafios no Atendimento Rápido
Pesquisa nacional analisa mais de 329 mil acidentes ofídicos em 13 anos, identificando homens, pardos e moradores de áreas rurais como as principais vítimas.
Um estudo abrangente realizado por instituições como o Ministério da Saúde, SES-SP, USP, Unesp e Instituto Butantan traçou um perfil detalhado das principais vítimas de acidentes com cobras no Brasil. A pesquisa, publicada na Revista do SUS (RESS), analisou mais de 329 mil registros de acidentes ofídicos entre 2010 e 2022, revelando que homens, adultos, pardos, com menor escolaridade e residentes de áreas rurais concentram a maioria dos casos.
As conclusões do estudo são cruciais para orientar ações de prevenção, educação e alocação de recursos em saúde, visando reduzir as mortes e incapacidades causadas por picadas de cobras, um problema de saúde pública que posiciona o Brasil como o terceiro país com maior número de acidentes no mundo.
Perfil das Vítimas: Quem está mais exposto?
Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) indicam que a maioria das vítimas é composta por homens (77,8%), pardos (58,4%), com idades entre 20 e 59 anos (76,3%). Além disso, a baixa escolaridade (48%) e a residência em áreas rurais (63,9%) são fatores predominantes. “O perfil das vítimas sugere que os acidentes com cobras estão associados à exposição ocupacional e a desigualdades sociais”, afirma Gisele Dias de Freitas, pesquisadora da SES-SP e autora do estudo.
A investigação também apontou desigualdades regionais significativas, com maior concentração de casos e maior mortalidade nas regiões Norte e Centro-Oeste do país. Os registros de acidentes tendem a aumentar nos meses mais chuvosos, indicando uma sazonalidade ligada às condições climáticas.
A Importância do Atendimento Rápido e os Desafios Geográficos
O atraso no atendimento médico é um dos principais fatores associados aos desfechos negativos, incluindo óbitos. Para jararacas, cascavéis e corais, mais de 65% das vítimas receberam atendimento em até três horas, dentro do intervalo recomendado de até seis horas para evitar complicações. No entanto, para acidentes com surucucus, o percentual cai para 44,1% dentro do tempo ideal, com 35,4% recebendo assistência apenas entre três e 12 horas.
A pesquisadora Gisele Freitas destaca que “em regiões remotas, as grandes distâncias, a dependência de transporte fluvial ou terrestre e a limitada disponibilidade de serviços especializados dificultam o acesso rápido à soroterapia”. Fatores culturais, como a busca inicial por tratamentos caseiros ou a subestimação da gravidade do acidente, também contribuem para o atraso. Coincidentemente, os acidentes com surucucus ocorrem em regiões mais remotas e de difícil acesso.
Espécies Envolvidas e a Letalidade
Entre as espécies de cobras mais envolvidas em acidentes, jararacas, cascavéis, corais e surucucus foram responsáveis por 1.514 óbitos no período analisado. As jararacas foram associadas à maioria das mortes (74,2%), enquanto as cascavéis apresentaram a maior taxa de letalidade anual (0,1%).
Apesar desses números, o Brasil conta com uma rede de vigilância consolidada, um sistema público que oferece soros antivenenos gratuitos e um sistema de notificações que cobre todo o território nacional, elementos essenciais na luta contra o ofidismo.
O Caminho para Reduzir Acidentes e Mortes
O Brasil segue a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de reduzir em 50% as mortes e incapacidades por acidentes ofídicos até 2030. Para Freitas, o principal desafio é “garantir que o paciente receba atendimento e soroterapia adequados no menor tempo possível, especialmente em áreas rurais e remotas”.
A pesquisadora enfatiza a necessidade de investimento contínuo em acesso, educação e pesquisas para apoiar a tomada de decisão dos gestores e desenvolver políticas públicas mais eficientes, especialmente para as populações mais vulneráveis e expostas ao risco. A produção de evidências como as deste estudo é fundamental para avançar significativamente nesse objetivo.
Fonte: jornal.usp.br
