Fósseis da Megafauna Revelam Impacto Duradouro na Diversidade Mamífera do Pampa Brasileiro e o Papel Inesperado do Gado Atual

A extinção da megafauna no final do Pleistoceno, há aproximadamente 11 mil anos, marcou um ponto crucial na história da biodiversidade terrestre. Cerca de 10% das espécies de mamíferos da América do Sul desapareceram, deixando um vácuo ecológico cujas consequências ainda são estudadas. No Pampa brasileiro, um novo artigo publicado na revista Functional Ecology investiga uma questão central: o gado atual, introduzido no bioma, consegue replicar as funções ecológicas outrora desempenhadas pela megafauna extinta?

A pesquisa, liderada por Thayara Carrasco, pós-doutoranda do Instituto de Biociências (IB) da USP, em colaboração com colegas do IB e da Swansea University, no Reino Unido, concluiu que o gado não substitui funcionalmente nenhuma das espécies de mamíferos extintas. Na verdade, a maioria das espécies introduzidas desempenha papéis semelhantes e redundantes, embora algumas contribuam para preencher certas lacunas funcionais.

Gado e a Perda de Funções Ecológicas

O cenário resultante é uma fauna empobrecida, não apenas em termos de diversidade taxonômica — o número de espécies — mas, crucialmente, em diversidade funcional, ou seja, os papéis que os animais desempenham dentro do ecossistema. “Isso resulta em uma fauna empobrecida não só taxonomicamente, mas funcionalmente”, explica Thayara Carrasco, primeira autora do estudo.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores quantificaram e compararam a diversidade funcional de três períodos: o Pleistoceno (antes da extinção da megafauna), o Holoceno (a época geológica atual, após a extinção) e o período recente, que inclui espécies introduzidas por humanos. O registro fóssil foi um elemento-chave, permitindo inferir as funções ecológicas das espécies de cada período com base em informações como tamanho corporal, dieta e habitat.

O Cenário do Pampa: Perdas e Ganhos Parciais

Os dados são alarmantes: a extinção Pleistoceno–Holoceno reduziu a diversidade de mamíferos terrestres em 30% e a diversidade funcional em 40% no Pampa brasileiro. Contudo, algumas espécies introduzidas podem estar desempenhando funções ecológicas que foram outrora realizadas por veados (A. ensenadensis) e cavalos (Equus neogeus) extintos. Entre essas espécies estão o chital (Axis axis), uma espécie exótica invasora em expansão no Brasil, e o cavalo doméstico (Equus ferus), cuja introdução resultou em um aumento de 12% na riqueza funcional.

Mesmo assim, a pecuária pode ter um papel importante na manutenção dos ecossistemas de campos. Pedro Godoy, professor do Departamento de Zoologia do IB e um dos autores do artigo, pondera sobre a importância social e econômica do gado e de outros animais domesticados no contexto do Pampa. “Embora o gado represente um novo impacto nesse ambiente, um que não existia durante o Pleistoceno, ainda é menos prejudicial do que a monocultura”, afirma, referindo-se às áreas convertidas para o cultivo de soja na região.

Importância Social, Econômica e a Vulnerabilidade do Bioma

Historicamente, o Pampa é o bioma menos preservado e protegido do Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que apenas 47,3% de sua vegetação nativa permanece e apenas 3% está protegida como área de conservação. “Esperamos que este artigo leve a políticas públicas para a conservação tanto das espécies quanto do bioma”, acrescenta o professor Godoy.

Desvendando o Passado Através dos Fósseis

A abundância de registros fósseis no Pampa foi fundamental para a pesquisa. “Dos fósseis, podemos ter uma ideia do que um animal comia, qual substrato ocupava, se era terrestre ou cavava tocas, como algumas preguiças-gigantes faziam”, explica Thayara Carrasco. Características como o tamanho corporal, por exemplo, indicam a extensão do impacto ambiental de um animal: um rato teria um impacto menor na função ecológica do ecossistema do que um mastodonte, um parente distante dos elefantes modernos.

Durante o Pleistoceno, entre 2,6 milhões e 11.700 anos atrás, a América do Sul abrigava uma vasta variedade de espécies de megafauna, com massas corporais variando de cerca de 10 quilogramas a várias toneladas. No entanto, todos os mamíferos com mais de 500 quilogramas foram extintos. A hipótese predominante é que o fim da Era do Gelo, combinado com a caça humana, contribuiu para o desaparecimento da megafauna, que incluía preguiças-gigantes, gliptodontes (parentes distantes dos tatus que pesavam várias toneladas) e mastodontes.

A distinção entre diversidade funcional e taxonômica é crucial. Enquanto a diversidade taxonômica mede o número de espécies existentes, a diversidade funcional considera “o número de espécies que possuem traços funcionais únicos que nenhuma outra espécie viva, seja introduzida ou domesticada, possui”, de acordo com Pedro Godoy. Essa distinção permite medir o desequilíbrio na biodiversidade e nos papéis ecológicos.

Nesse contexto, Thayara Carrasco observa que espécies introduzidas nem sempre são vilãs. “Geralmente, vemos as espécies introduzidas como vilãs. Mas, neste caso, ela [o chital] pode estar simplesmente ocupando nichos ecológicos que estavam vagos e não necessariamente representa uma ameaça às espécies nativas.” Contudo, a pesquisadora alerta que mais estudos de campo são necessários para determinar se as espécies introduzidas realmente competem com as nativas.

Atualmente, as grandes espécies de mamíferos são encontradas principalmente no continente africano. No entanto, pesquisadores alertam para a crescente ameaça de extinção que enfrentam as espécies de grande porte, uma tendência observada desde o início do Holoceno. O artigo completo, “Long-term changes in functional diversity and its implications for mammalian conservation and ecological restoration in a grassland ecosystem”, está disponível online.

Fonte: jornal.usp.br

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