A Visão Interdisciplinar em Xeque na USP-Leste
A Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), conhecida como USP-Leste, foi concebida com um propósito inovador: transcender os cortes disciplinares e epistemológicos que, há mais de um século, fragmentam o conhecimento científico. Diferente da estrutura tradicional da Universidade de São Paulo (USP), onde departamentos consagram especializações e identidades apartadas – natureza versus sociedade, físico versus humano, corpo versus mente – a EACH nasceu para ser um ambiente de formação e produção de conhecimento genuinamente interdisciplinar.
Essa abordagem alinha-se à reflexão de Marilena Chauí sobre o significado da “formação” na universidade pública. Para a filósofa, formar é “estimular a passagem do instituído ao instituinte”, um processo que a obra de arte e de pensamento exemplifica ao interrogar o presente e reabrir o tempo para construir o futuro. A vocação da EACH, com seus cursos de graduação e pós-graduação de alto comprometimento social e perfil inovador, sempre foi a de cultivar essa liberdade, interação e diversidade, evitando a cristalização e a sujeição a um modelo que serve mais à otimização do mercado do que à reflexão crítica.
O Longo Caminho da Reorganização: Um Projeto Coletivo
Desde sua fundação, a EACH prescindiu de uma organização departamental, reconhecendo que esta não se sintonizava com seu projeto pedagógico institucional. No entanto, o crescimento da unidade revelou a necessidade de aprimorar sua gestão acadêmica e administrativa, mantendo a fidelidade à sua proposta original. Por volta de 2008, iniciou-se um processo amplamente democrático e participativo, envolvendo técnicos-administrativos, docentes e estudantes. O objetivo era encontrar um modelo de gestão que proporcionasse o pleno desenvolvimento do projeto acadêmico-institucional da escola.
Após anos de debates e propostas, incluindo a análise de comissões externas que reconheceram os benefícios da estrutura não departamental, a comunidade da EACH foi consultada. Em um processo de votação em várias etapas, a proposta de criação de Núcleos de Pesquisa e Docência e Extensão (NPDE) – posteriormente rebatizados como Centros Acadêmico-Administrativos, seguindo sugestão da Procuradoria Geral (PG) da USP – foi a mais votada em todas as categorias. Em 2018, a Congregação aprovou o relatório detalhando a implantação dos Centros.
A Burocracia Ignora a Vontade Comunitária e o Projeto Institucional
O caminho para a implementação dos Centros, contudo, foi marcado por idas e vindas burocráticas. Em 2019 e 2021, a PG emitiu pareceres que, embora sugerissem aprimoramentos e mudanças de terminologia (de Núcleos para Centros, por exemplo), não apresentavam óbices jurídicos à implantação. A documentação foi encaminhada a outros órgãos centrais, como o Departamento de Recursos Humanos e a Comissão de Orçamento e Patrimônio, que sugeriram a retomada da discussão após o término dos efeitos da Lei Complementar nº 173 de 2020, que impedia contratações e aumento de gastos devido à pandemia.
A reviravolta ocorreu em 2025, quando a Comissão de Legislação e Recursos (CLR) emitiu um parecer superficial, desconsiderando todo o histórico e conteúdo do processo, alegando que não haveria diferenças entre os Centros propostos e os departamentos tradicionais. A Comissão de Atividades Acadêmicas (CAA) acompanhou esse entendimento, mas finalizou seu parecer oferecendo-se para colaborar no aprimoramento da proposta. Contudo, a atual Congregação e a recém-empossada direção da EACH acolheram a interpretação da CLR, instituindo um novo Grupo de Trabalho para coordenar a departamentalização da unidade, alegando que os órgãos centrais teriam sido contrários à proposta dos Centros.
O Risco de Perder a Vocação Instituinte da EACH
Os autores do artigo, professores da EACH, veem essa decisão como uma desconsideração flagrante de um processo participativo e democrático de mais de uma década. Eles argumentam que a principal diferença entre os departamentos e a proposta dos Centros reside numa modificação substancial na estrutura de poder, visando mais democracia na gestão acadêmico-administrativa. A departamentalização, nesse contexto, representa um “desgaste pedagógico-acadêmico-institucional” que contraria a própria ideia de formação crítica defendida por Chauí e mata a vocação “instituinte” da EACH, submetendo-a a um enquadramento institucional-estatutário que a USP-Leste pretendia inovar.
O Projeto Acadêmico da EACH, em vigência até 2027, reitera como missão “Fomentar a integração das áreas do conhecimento promovendo a interdisciplinaridade no ensino, pesquisa e extensão” e visa consolidar-se como uma unidade comprometida com a superação das desigualdades e a defesa da democracia, privilegiando práticas interdisciplinares. O projeto ainda elenca a criação dos Centros Acadêmico-Administrativos como uma das ações. A decisão pela departamentalização, portanto, não apenas ignora a vontade da comunidade, mas também o próprio documento norteador aprovado pela Congregação.
Com a departamentalização, a EACH corre o risco de descaracterizar seu projeto acadêmico, comprometendo a interdisciplinaridade que foi e é um de seus maiores diferenciais. A questão que se impõe é se a Universidade está disposta a suportar processos instituintes ou se o instituído sempre prevalecerá, abraçando a burocracia para não admitir o novo. Os autores clamam por um novo confronto de propostas, com amplo envolvimento da comunidade, para decidir o futuro da escola que completou 21 anos em 2026.
Fonte: jornal.usp.br
