A Universidade de São Paulo (USP) deu um passo gigante rumo à sustentabilidade e inovação energética com a inauguração da Planta Solar Heliotérmica em Pirassununga, interior paulista. O empreendimento, que demandou uma década de trabalho e um investimento de cerca de R$ 20 milhões, é uma iniciativa pioneira da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) e promete transformar a matriz energética da agroindústria, gerando eletricidade e calor de forma totalmente não poluente.
O Brasil, embora abençoado com um dos maiores índices de radiação solar do mundo, ainda engatinha no uso do sol como fonte de energia para atividades industriais. A nova planta da FZEA vem para mudar esse cenário, consolidando o País na vanguarda da pesquisa sobre energia solar térmica e explorando seu vasto potencial de integração com o setor agroindustrial. O professor Celso Eduardo Lins de Oliveira, coordenador do Laboratório de Eficiência Energética e Simulação de Processos (Leesp) da FZEA, ressalta que tecnologias como essa podem ser responsáveis por até 20% da produção global de energia.
Tecnologia por Trás da Inovação
A Planta Solar Heliotérmica da USP em Pirassununga é um marco tecnológico. Diferente dos painéis fotovoltaicos que convertem luz em eletricidade, este sistema utiliza um campo inicial de 20 heliostatos – espelhos móveis que seguem o movimento do sol. Esses espelhos direcionam e concentram os raios solares em um receptor instalado no alto de uma torre de 40 metros de altura. No receptor, a temperatura pode atingir impressionantes 600°C, aquecendo um fluido térmico que, ao circular em trocadores de calor, produz vapor. Este vapor, por sua vez, movimenta uma turbina e um gerador, produzindo energia elétrica.
Com capacidade para expandir para até 143 heliostatos, a planta pode ocupar uma área de 10 mil metros quadrados, gerando 70 kW elétricos e 210 kW térmicos. Um dos grandes orgulhos do projeto é que 80% de sua fabricação foi realizada no Brasil, envolvendo mais de 65 empresas nacionais e estrangeiras, o que capacitou mão de obra e indústrias locais para a produção nacional de tecnologias limpas.
Potencial Estratégico e Transição Energética
O principal objetivo da planta é servir como uma plataforma de pesquisa para a geração heliotérmica de energia no Brasil. “Com esta plataforma construída com tecnologia nacional, podemos trabalhar junto à nossa indústria no desenvolvimento comercial não só para o Brasil, mas também para outros países com potencial de energia solar, uma vez que não existe, hoje, uma tecnologia de padrão universal”, explica o professor Oliveira. Isso abre caminho para a ativação de um complexo industrial voltado para a produção de máquinas e serviços de energia limpa no País.
A heliotermia representa um avanço crucial na transição energética. Ao contrário das usinas termelétricas tradicionais que usam combustíveis fósseis, a planta heliotérmica utiliza uma fonte renovável e limpa, com zero emissões de gases de efeito estufa. Além disso, quando combinada com armazenamento térmico – uma próxima fase de pesquisa do projeto –, a energia heliotérmica torna-se despachável, ou seja, capaz de gerar energia mesmo na ausência de luz solar. Isso a diferencia das fontes eólica e fotovoltaica, que são intermitentes, oferecendo uma solução para os desafios de estabilidade da rede e diminuindo a dependência hídrica e de termelétricas a combustíveis fósseis.
Gerando Energia e Renda para o País
A visão dos pesquisadores vai além da geração em larga escala. Eles buscam desenvolver um modelo de planta solar heliotérmica de pequeno porte, modular e versátil, com tecnologia nacional, que possa ser replicado comercialmente. A ideia é levar eletricidade e oportunidades de renda a comunidades do interior do Brasil, especialmente em regiões com infraestrutura energética precária. “A transferência de tecnologia para a indústria é fundamental”, afirma Oliveira, visando a disponibilização de modelos mais acessíveis e adaptáveis.
Outro grande diferencial é o conceito de cogeração, que aproveita o calor residual do processo de geração de eletricidade para diversas aplicações industriais, como secagem, refrigeração e pasteurização. Inicialmente, a planta da FZEA abastecerá o matadouro-escola do campus de Pirassununga, comprovando a viabilidade de operar uma indústria crucial para a pauta de exportação brasileira com base em energia limpa.
Um Esforço Conjunto
A cerimônia de inauguração, realizada em 24 de março, contou com a presença de diversas autoridades, incluindo o reitor da USP, Aluisio Segurado, a vice-reitora, Liedi Bernucci, e outros dirigentes, além de representantes de empresas e instituições parceiras. O reitor Segurado enfatizou que a planta sintetiza o que a sociedade espera da USP: inovação, avanço do conhecimento e benefícios concretos para a sociedade, alinhados aos objetivos de desenvolvimento sustentável.
A diretora da FZEA, Carmen Trindade, agradeceu o empenho da equipe e a parceria de instituições como o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Centro Aeroespacial Alemão (DLR) e a Neoenergia. O projeto também recebeu depoimentos em vídeo de figuras proeminentes como o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Terra Prates, que destacaram a importância estratégica da iniciativa para o futuro energético e econômico do Brasil.
Fonte: jornal.usp.br
