A Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP está na linha de frente de um projeto inovador coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A iniciativa visa enfrentar os impactos da chikungunya no Brasil, combinando assistência direta à população, capacitação de profissionais de saúde e pesquisa científica aprofundada em municípios afetados por surtos da doença.
Recentemente, o projeto marcou presença em Dourados e Anastácio, no Mato Grosso do Sul, onde equipes multidisciplinares formadas por médicos, pesquisadores, estudantes e profissionais de laboratório atuaram diretamente nas regiões. O foco é oferecer atendimento clínico, diagnóstico laboratorial preciso, além de capacitar a rede de saúde local e desenvolver estudos científicos sobre a evolução da doença.
Uma Abordagem Integrada no Enfrentamento da Doença
Coordenado pela pesquisadora Viviane Boaventura, da Fiocruz Bahia e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a liderança da professora Cristina Ribeiro de Barros Cardoso pela FCFRP da USP, o projeto surge da necessidade urgente de compreender a evolução clínica da chikungunya. O objetivo é identificar os fatores que levam ao desenvolvimento de sequelas que podem persistir por meses ou até anos após a infecção inicial.
A metodologia é clara: as equipes chegam às localidades assim que os sistemas de vigilância epidemiológica identificam um surto, atuando ainda na fase aguda da doença. Pacientes são avaliados, amostras são coletadas e um acompanhamento clínico e científico é iniciado, com consultas de retorno e telemonitoramento nos meses seguintes. Paralelamente, são realizadas atividades de orientação à população e aos profissionais da rede pública de saúde.
O Papel Essencial do Laboratório e a Pesquisa de Gênero
A contribuição da FCFRP da USP concentra-se principalmente na frente laboratorial do projeto. Pesquisadores, pós-graduandos e estudantes da unidade participam ativamente da coleta, processamento e análise das amostras biológicas obtidas durante as expedições. Uma das linhas de pesquisa mais importantes do grupo investiga por que mulheres apresentam maior predisposição às formas crônicas da chikungunya, como a artralgia persistente.
Para isso, são analisados citocinas, quimiocinas, perfis celulares, marcadores moleculares associados à inflamação persistente e a influência de hormônios sexuais e adrenais na resposta imunológica ao vírus. A pesquisa conta com o apoio de dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs): o de Investigação em Imunologia e o de Saúde Digital, além de bolsistas da FAPESP.
Estrutura de Campanha e Acompanhamento de Pacientes
A operação montada nos municípios funciona como uma verdadeira estrutura de campanha, com a instalação de dois consultórios para atendimento médico e um laboratório temporário para o processamento das amostras. Pacientes atendidos na fase aguda são incluídos em uma coorte de acompanhamento, com teleconsultas realizadas entre 30 e 45 dias após a primeira consulta para monitorar a evolução dos sintomas.
Após cerca de três meses, as equipes retornam ao município para uma nova etapa de acompanhamento e coleta de material biológico. Essa estratégia permite correlacionar dados da fase aguda com o que ocorre meses depois, possibilitando a identificação de biomarcadores associados à cronificação da doença e a compreensão dos mecanismos subjacentes às sequelas.
Apoio Local, Capacitação e Formação de Novas Gerações
Além da assistência direta, o projeto oferece apoio crucial aos serviços de saúde locais, auxiliando na confirmação laboratorial de casos suspeitos e na organização dos fluxos de atendimento durante os surtos. A capacitação de profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e agentes comunitários, é uma frente essencial, abordando o reconhecimento precoce dos sintomas, manejo clínico e prevenção de sequelas.
A iniciativa já foi aplicada em cidades da Bahia e do Ceará, e recentemente em Mato Grosso do Sul, onde as equipes enfrentaram desafios relacionados ao acesso à informação e aos serviços de saúde. A colaboração com universidades e secretarias municipais de saúde, como o apoio da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), é fundamental para o sucesso das ações.
Para a professora Cristina, um dos legados mais significativos do projeto é a formação de novos pesquisadores. Alunos de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado participam ativamente das missões, desde o atendimento aos pacientes até as análises laboratoriais, o que proporciona uma visão prática da pesquisa e reforça o compromisso da universidade com problemas concretos de saúde pública. A meta final é ampliar o conhecimento sobre a chikungunya e mitigar seus impactos duradouros na saúde da população brasileira.
Fonte: jornal.usp.br
