Usina Inovadora da USP Transforma Resíduos Orgânicos em Bioenergia e Biofertilizantes: Solução Sustentável para Cidades Brasileiras
Projeto do IEE oferece modelo replicável para gestão de lixo, gerando eletricidade, biometano e adubo, com potencial para revolucionar a economia circular no Brasil.
A transição para uma economia circular, focada na reciclagem e na redução do desperdício, é crucial para enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas e a gestão de resíduos. Nesse contexto, a Usina de Bioenergia e Biofertilizantes com Resíduos Orgânicos, desenvolvida pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, emerge como um marco tecnológico promissor. O projeto transforma resíduos orgânicos, que antes seriam descartados em aterros, em fontes valiosas de energia e fertilizantes, ao mesmo tempo em que reduz a emissão de gases de efeito estufa.
Iniciada em 2018 e com operação parcial desde 2021, a usina foi oficialmente inaugurada com todas as suas funcionalidades, incluindo a Unidade de Produção de Biometano. O custo total do projeto foi de R$ 10 milhões e utilizou inicialmente resíduos dos restaurantes da Cidade Universitária e de instituições parceiras. “A USP é um laboratório que produz soluções concretas para os desafios da sociedade. Esse projeto integra conhecimentos para criar uma solução viável para ser replicada nas cidades de todo o Brasil”, afirma Ildo Luís Sauer, coordenador do projeto.
Benefícios Múltiplos: Energia, Combustível e Adubo a Partir do Lixo
Com capacidade para processar 25 toneladas de resíduos orgânicos por dia, a usina demonstra um potencial impressionante. Cada tonelada de resíduos gera aproximadamente 800 litros de digestato (contendo cerca de 12 kg de fertilizantes recuperados) e 120 metros cúbicos de biogás. Esse biogás pode ser convertido em 160-200 kWh de eletricidade, o suficiente para abastecer uma residência de cinco pessoas por mês, ou em 100-120 metros cúbicos de biometano, capaz de substituir a mesma quantidade em litros de gasolina para veículos.
Além dos ganhos ambientais, há um claro benefício econômico. Segundo o pesquisador, a USP, por exemplo, gasta cerca de R$ 500 por tonelada de resíduos levados a aterros. Com a usina, esse custo é eliminado e ainda se gera receita com a produção de energia elétrica e biometano, que pode abastecer parte da frota veicular da universidade.
Modelo Replicável para Cidades e Grandes Geradores
O modelo tecnológico desenvolvido pela USP é totalmente apto para ser adotado por prefeituras, regiões metropolitanas e grandes geradores de resíduos da cadeia alimentar, como indústrias, centrais de abastecimento e restaurantes. Os pesquisadores estimam que apenas 300 usinas como a do IEE seriam suficientes para tratar todo o volume de resíduos orgânicos domésticos gerados na cidade de São Paulo. Para o Estado, seriam necessárias 600 unidades, e para todo o Brasil, cerca de 3 mil.
Um dos desafios superados foi a regulamentação. A usina foi a primeira operação com essa tecnologia a ser licenciada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e obteve registro no Ministério da Agricultura e Pecuária como produtora de material secundário, além de estar em conformidade com a SP Regula.
A Usina em Detalhes: Como Funciona a Transformação Sustentável
A estrutura da Usina de Bioenergia e Biofertilizantes com Resíduos Orgânicos é composta por cinco unidades principais: Recepção, Triagem e Alimentação; Produção de Biogás e Biofertilizante; Cogeração de Bioeletricidade e Calor; Produção de Biometano; e Compressão e Abastecimento Veicular.
A Unidade de Produção de Biogás e Biofertilizante é o coração do processo, onde os resíduos orgânicos são triturados e passam por biodigestão anaeróbica em biorreatores, transformando a matéria orgânica em digestato e biogás. O digestato é então utilizado como biofertilizante em projetos agrícolas, com resultados promissores em hortas, hidroponia e culturas como a cana-de-açúcar. O biogás, por sua vez, pode ser direcionado para a produção de bioeletricidade na Unidade de Cogeração, ou para a recém-inaugurada Unidade de Produção de Biometano, onde é purificado e armazenado como combustível veicular (BioGNV).
Reconhecimento e Impacto Futuro
A cerimônia de inauguração, realizada em 30 de junho, contou com a presença de importantes autoridades, incluindo a vice-reitora da USP, Liedi Bernucci, a secretária Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, e o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco. Todos enfatizaram a importância da ciência e da tecnologia desenvolvidas na USP para gerar inovação e trazer benefícios econômicos e ambientais para a sociedade brasileira.
O ministro Capobianco destacou que o projeto “torna visível para a sociedade as possibilidades da ciência brasileira, da tecnologia produzida aqui para solucionar desafios relevantes que todos nós enfrentamos”. José Goldemberg, ex-reitor e professor emérito da USP, complementou, ressaltando que a usina representa “a própria natureza da Universidade de São Paulo, que sempre foi uma pioneira em inovações”, formando pessoas capazes de pensar e analisar o futuro da energia no país.
Fonte: jornal.usp.br
