O Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) inicia neste domingo, 10 de maio de 2026, às 15h, o 28º ciclo de seu Programa de Leituras Públicas. Sob o título “Mulheres no Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP)”, a edição presta homenagem à trajetória de algumas das atrizes que integraram a histórica companhia paulista, ativa entre 1945 e 1966. A iniciativa busca dar visibilidade a um legado frequentemente obscurecido pela narrativa tradicional da história do teatro brasileiro, celebrando nomes como Áurea Campos, Chica Lopes e Jacira Sampaio.
A motivação para o resgate histórico
A temática do ciclo foi inspirada por uma provocação da professora e dramaturga Leda Maria Martins durante um simpósio sobre o TENSP, realizado no Sesc Carmo em 2025. Na ocasião, Martins questionou a minimização da importância das mulheres nos estudos sobre o grupo. “Foi uma alegria participar da oficina Dramas Negros em dezembro passado”, afirma Otacílio Alacran, agente cultural do Tusp e coordenador do Programa de Leituras Públicas. “Mas escutar a reivindicação da organizadora [Leda] acerca da ausência das mulheres no programa deixou ecoando a necessidade de sempre afinarmos e repensarmos a importância da escuta e dos dizeres. E aqui mais uma vez nos voltamos à palavra, o material primordial de nosso Programa”, completa Alacran.
Em resposta a essa reflexão, o Tusp articulou esta nova série de encontros que visa restaurar o protagonismo dessas atrizes. O ciclo articula práticas cênicas à pesquisa acadêmica, com a presença de pesquisadoras e artistas convidadas que compartilham suas perspectivas em encontros abertos e gratuitos. Serão lidos textos fundamentais do repertório do TENSP, coletivo que não apenas abriu espaço para dramaturgias e histórias afro-brasileiras, mas também serviu de escola para gerações de artistas e intelectuais.
Homenageadas e a força da escolha artística
A escolha por homenagear Áurea Campos, Jacira Sampaio e Chica Lopes deveu-se à longa dedicação das três à companhia e às suas relevantes trajetórias artísticas dentro e fora do grupo. O ciclo também celebra outras atrizes que passaram pelo TENSP, como Alice Rezende, Nair Araújo, Aparecida Rocha, Cynthia Bastos, Jane de Souza e Waldice Borges. Essas mulheres negras migraram corajosamente para São Paulo nas décadas de 1950 e 1960, fazendo a escolha ética e estética de fazer teatro negro em uma metrópole moderna marcada pela branquitude.
“Este ciclo oferece uma oportunidade rara de colocar no centro da história do teatro brasileiro trajetórias de atrizes ainda pouco reconhecidas por uma historiografia teatral branca”, destaca William Santana Santos, responsável pela curadoria desta edição das Leituras Públicas. “Ao revisitar textos que essas atrizes encenaram, o público poderá se aproximar das personagens, dos repertórios e dos mundos que elas ajudaram a construir na São Paulo do meio do séc. XX, imaginando outras existências para mulheres negras, para além dos lugares sociais que lhes eram impostos”, afirma Santos.
Dramaturgias, cinema e uma peça inédita
As dramaturgias selecionadas para as leituras — que incluem textos consagrados de Eugene O’Neill, Roberto Freire, William Faulkner e Lorraine Hansberry — revelam a centralidade do TENSP e destas artistas no circuito profissional paulista. O resgate passa também pela televisão e cinema, para onde Jacira Sampaio – conhecida nacionalmente como a Tia Nastácia do Sítio do Picapau Amarelo – e Áurea Campos expandiram suas sólidas carreiras como atrizes após a estreia nos palcos do TENSP.
O ciclo completa-se com uma homenagem à dramaturga estadounidense Lorraine Hansberry, com a leitura de seu emblemático A raisin in the sun, conhecido no Brasil como O sol tornará a brilhar. Primeiro texto de uma dramaturga negra a ser encenado na Broadway, em 1959, a peça teve sua montagem planejada pelo TENSP em 1962. Em parceria com o Teatro Oficina, a encenação partiria de uma tradução realizada por Zé Celso, que também assumiria a direção, mas o projeto não chegou a se concretizar. Sem versão publicada no Brasil, a leitura de A raisin in the sun será feita a partir de trechos da tradução inédita realizada pela pesquisadora e dramaturga convidada Fernanda Rocha.
Colaborações e detalhes do programa
Acompanham as demais leituras do ciclo as presenças especialmente convidadas de Aysha Nascimento, artista multidisciplinar e fundadora da Cia. Dos Inventivos e do Coletivo Negro; Dirce Thomaz, atriz, diretora, pesquisadora e fundadora do Centro de Dramaturgia e Pesquisa sobre Cultura Negra; e da historiadora e pesquisadora Liliane Braga, curadora do Dossiê Alice Rezende. Além disso, este ciclo das Leituras Públicas do Tusp retoma a ação vocacional junto ao público 60+, renovando parceria com o coletivo Confraria da Voz, que utiliza o canto como ferramenta de expressão artística e cidadã, promovendo o diálogo intergeracional.
Realizado continuamente desde 2009, o Programa Tusp de Leituras Públicas propõe a cada ciclo uma série de leituras de peças teatrais efetuadas cenicamente em encontros abertos e gratuitos, com participação do público presente, composto por artistas, comunidade 60+, estudantes, convidados e integrantes da equipe artístico-pedagógica e curatorial do Tusp.
Programa Tusp de Leituras Públicas | Ciclo XXVIII: Mulheres no TENSP
Quando: De 10 a 31 de maio de 2026, domingos, às 15h.
Onde: Sala Experimental do Tusp (Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque).
Entrada: Gratuita.
Fonte: jornal.usp.br
