Teatro da USP: Peça ‘Maiakóvski e a Revolução’ Desvenda o Patético Humano com Palhaçaria, Sátira Política e Crítica Social no Centro MariAntonia

Um grupo de revolucionários em busca de inspiração no poeta russo Vladimir Maiakóvski para transformar o país é o ponto de partida para o novo espetáculo teatral em cartaz no Teatro do Centro Universitário Mariantonia da USP. A peça ‘Foi Enquanto eu Esperava a Encomenda de um Livro de Maiakóvski que Tive uma Epifania sobre a Revolução’, do Grupo Pano, utiliza a palhaçaria e a sátira para expor os vícios e a condição ‘patética’ da humanidade.

Dirigida e escrita por Caio Silviano, a obra permanece em cartaz até o dia 18 de julho, com sessões às quintas, sextas e sábados às 20h, e aos domingos às 19h. Há ainda sessões extras marcadas para as quartas-feiras, dias 8 e 15 de julho, às 20h. Os ingressos são gratuitos e distribuídos uma hora antes de cada apresentação, exceto no domingo, dia 5 de julho, devido ao jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo.

A Busca por uma Revolução e a Descoberta do Patético

A trama acompanha quatro ‘camaradas’ que, apesar de nutrir ideais fortes e esperança, se veem em um bloqueio criativo para instituir grandes mudanças no país. A solução, eles acreditam, está em uma obra do ‘Poeta da Revolução Russa’, Vladimir Maiakóvski. A narrativa se desenrola durante a espera pela encomenda desse livro, período em que os personagens são confrontados com suas próprias deficiências e o ‘patético’ de sua condição.

“A proposta deles é a revolução dessa democracia liberal tal qual ela é. Uma democracia ineficaz, que não vai se sustentar”, explica Caio Silviano. A inspiração para um novo sistema, associado ao socialismo e ao comunismo, remete à revolução soviética, com a ideia de começar pela democratização da capital do País, um conceito que o diretor aponta como traduzível de diversas formas para o público.

Palhaçaria, Sátira e Metateatro como Ferramentas Críticas

Ambientada em uma célula revolucionária, a peça apresenta personagens ‘clownescos’, com trejeitos de palhaçaria, maquiagens exageradas e uma mistura de humor e emoção. Essa estética é fundamental para a proposta da obra, que satiriza os absurdos humanos e revela o lado ridículo da sociedade. “Às vezes realmente acreditamos em alguns ideais, como eu realmente creio em muito do que eles creem, mas nos deparamos com formas um tanto cômicas e patéticas da nossa própria condição humana para tentar concretizá-los”, afirma Silviano.

Além da palhaçaria, a peça emprega a metalinguagem e a quebra da quarta parede. Em certos momentos, ‘a diretora’ e ‘o escritor da peça’ entram em cena, ou a luz muda, e os atores se dirigem diretamente à plateia. Essa técnica, segundo o diretor, serve para incluir a própria obra e seus criadores na crítica, evidenciando o ‘patético dessas personalidades no contexto de um teatro absurdo, cômico, político ou satírico’.

Inspiração Pessoal e Reflexão sobre a Inação Coletiva

O título extenso e a temática da peça surgem de uma experiência pessoal de Caio Silviano. Em 2020, durante a pandemia, ele encomendou um livro de Maiakóvski que demorou a chegar. Confrontado com a tensão política e social do Brasil daquele período e a própria inação de estar em casa, Silviano refletiu: “Olha o que está acontecendo no macro e eu, sem conseguir fazer nada, estou aqui estudando Maiakóvski. É muito ridículo.” Essa epifania deu origem à peça, cujos personagens acabaram ‘contaminados’ pelos vícios, falhas e sonhos do próprio autor.

A obra é a primeira realizada pelo Grupo de Pesquisa Teatral Pano, fundado em 2017, após a pandemia, consolidando um trabalho de estudos teóricos e práticos na área teatral.

O Chamado à Ação: Combatendo o Pessimismo da Esperança

A sátira da peça não se restringe à vida do diretor, mas se aprofunda em uma crítica social mais ampla, guiada por autores como Paulo Freire e Stig Dagerman. De Freire, Silviano incorpora o conceito de ‘esperançar’, que alerta para o risco de a esperança se tornar um afeto imobilizador, uma vez que a construção do futuro exige luta e ação. De Dagerman, especialmente de ‘A Política do Impossível’, vem a ideia de que, em tempos de crise e desarticulação dos campos progressistas, apenas corações ardentes podem reconstruir o mundo.

“Hoje a extrema direita global está muito forte […] E, muitas vezes, os campos progressistas estão desarticulados, por inúmeras questões”, observa Silviano. Para ele, a autocrítica é vital para romper essa inação. O diretor almeja que o público saia do teatro com ‘a vontade de fazer algo’, combatendo o pessimismo criado pelo neoliberalismo que faz as pessoas desacreditarem da possibilidade de mudança. “A história não acabou, mas existe, sim, uma necessidade iminente de agir. É essa a sensação que eu gostaria de passar para o público, mais até do que a tradução racional disso.”

Fonte: jornal.usp.br

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