Revista do IEB nº 93 Desvenda o Brasil: Do Período Colonial ao Urbanismo Contemporâneo, Com Análises de Machado de Assis e Di Cavalcanti

Revista do IEB nº 93 Desvenda o Brasil: Do Período Colonial ao Urbanismo Contemporâneo, Com Análises de Machado de Assis e Di Cavalcanti

Publicação da USP oferece um olhar multifacetado sobre a nação, abordando desde a Academia dos Felizes no século XVIII até os dilemas da mobilidade urbana em São Paulo.

A mais recente edição da Revista do IEB – publicação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – acaba de ser lançada, oferecendo um panorama rico e diversificado do Brasil. Com artigos que viajam do período colonial à contemporaneidade, o volume 93 explora as construções de memória e identidade nacionais através de lentes da literatura, artes plásticas, música, arquitetura, urbanismo e história. A revista está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.

O Brasil Colonial e a Academia dos Felizes

A edição abre com o artigo “Ao Herói Que Faz a Festa: a Academia dos Felizes (São Paulo, 1770)”, de Jean Gomes de Souza, doutorando em História Social da FFLCH/USP. O texto mergulha nos festejos organizados pelo governador da capitania de São Paulo, D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, em 1770. Em meio a cortejos e cavalhadas, foi instalada uma academia literária de circunstância, a Academia dos Felizes, cujas produções poéticas em homenagem ao governador foram registradas na “Relação das Festas Públicas”, hoje sob guarda do IEB.

Souza destaca a importância desse registro, que refuta a visão de um cenário literário “desolador” em São Paulo colonial. “Constatamos que a cidade contava com pessoas capazes de escrever em número suficiente para que fossem reunidas em uma academia de circunstância”, afirma o autor, sublinhando o domínio dos membros sobre as práticas poéticas e idiomas da época.

Machado de Assis e as Facetas do Modernismo

A revista avança no tempo com o professor Ivan Marques (FFLCH/USP), que, em “Ideia Fixa: o Sequestro Machadiano em Oswald, Mário e Drummond”, revela a surpreendente influência de Machado de Assis nas obras dos três modernistas, apesar do repúdio inicial. Marques analisa conexões em obras como “Memórias Sentimentais de João Miramar” (Oswald), “Amar, Verbo Intransitivo” e “Macunaíma” (Mário), e “Alguma Poesia” (Drummond), apontando a presença machadiana como uma “ideia fixa” ou um “sequestro”.

Machado retorna à pauta com o professor Paulo Sérgio de Proença (Unilab), que, em “Ambiguidades no capítulo O Verdadeiro Cotrim das Memórias Póstumas de Brás Cubas”, dissecou o capítulo 123 da obra. Proença explora as estratégias retóricas de Brás Cubas ao descrever seu cunhado Cotrim, revelando um jogo de ironia que transforma traços negativos, como o amor ao dinheiro e a violência contra escravizados, em qualidades. A estrutura “A, mas B” identificada pelo pesquisador demonstra como as ambiguidades textuais se ajustam às da vida social, resultando em uma crítica ácida à elite da época.

O Modernismo também é revisitado nas artes plásticas com Fabrício Reiner de Andrade (FFLCH/USP). Em “Di Cavalcanti: ‘Mulatismo’, Boemia e Militância em Perspectiva”, o autor desafia a apreciação consolidada da obra de Di Cavalcanti, que muitas vezes negligencia seu engajamento político e social em favor de aspectos boêmios. Andrade ressalta a militância do artista no Partido Comunista Brasileiro, suas prisões e o diálogo intelectual que o levou a uma “arte social” focada na valorização da cultura popular brasileira e na emancipação da classe trabalhadora.

Urbanismo em São Paulo: Mobilidade e Patrimônio

A Revista do IEB também aborda questões urbanas contemporâneas. O professor Jaime Tadeu Oliva (IEB) discute, em “Regimes de Distância, Mobilidade e o ‘Periurbano Interno’ em São Paulo”, o impacto de condomínios fechados e shopping centers na mobilidade urbana e no direito à cidade. Oliva critica a desorganização dos regimes de distância das cidades densas por esses empreendimentos, que favorecem o automóvel particular e criam espacialidades incompatíveis com a vida urbana.

Ainda sobre o urbanismo paulistano, os professores Felipe de Araújo Contier (Mackenzie) e Raquel Furtado Schenkman Contier (PUC-SP) investigam a demolição do ateliê de Aldemir Martins, projetado por Carlos Lemos, no bairro do Sumaré. O artigo “Notas sobre Um Edifício Demolido: o Ateliê de Aldemir Martins, Projeto de Carlos A. C. Lemos” documenta a perda de um imóvel que era um ponto de encontro cultural e um exemplo da arquitetura paulistana do início dos anos 1970, mesclando referências brutalistas e populares.

Outras Perspectivas e Acesso à Publicação

A edição nº 93 da Revista do IEB ainda apresenta artigos sobre os foliões da Festa do Divino, cenas musicais em “O Turista Aprendiz” de Mário de Andrade, transformações no mercado editorial de livros juvenis e documentos sobre a prisão de Milton Santos durante a ditadura militar. A seção de resenhas comenta os livros “Perifobia”, de Lilia Guerra, e “História e Cultura no Som da Viola”, de Ivan Vilela.

No editorial, os professores Marcos Antonio de Moraes, Dulcilia Helena Schroeder Buitoni e Ana Paula Cavalcanti Simioni destacam que os artigos “materializam notáveis esforços de apreensão de realidades e práticas socioculturais da América Portuguesa e do Brasil, dos séculos 18 ao 21”, oferecendo “matérias férteis para a percepção de fenômenos históricos complexos”.

A Revista do IEB, número 93, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.

Fonte: jornal.usp.br

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