A sociedade contemporânea vive um período de intensa deterioração emocional, onde sentimentos de ressentimento, desespero e angústia se tornam cada vez mais presentes, permeando desde o cotidiano individual até manifestações culturais globais. Este cenário, exacerbado por uma concentração de poder tecnológico sem precedentes e suas consequências sociais, aponta para uma crise que atinge até mesmo símbolos inesperados, como o icônico urso polar da Coca-Cola, outrora sinônimo de leveza e alegria.
A Ascensão do Mal-Estar na Era Digital
Segundo a professora Clotilde Perez, da Escola de Comunicações e Artes da USP, o termo “big tech” ilustra a concentração de poder tecnológico, financeiro e político que opera em um ciclo contínuo de “dinheiro chama dinheiro”. Para aqueles que não se beneficiam dessa riqueza, as consequências são severas. Após a pandemia, a condição emocional da população tem se degradado dia a dia, com o aumento de casos de burnout, crises de ansiedade, síndrome do pânico e condições psíquicas mais graves. Além de conflitos globais, a violência prolifera em ambientes cotidianos, como trânsito e condomínios, e manifesta-se em crueldades contra pessoas vulneráveis e animais, feminicídios e outros crimes.
Este panorama, tanto na realidade quanto em simulacros gameficados – como Tormentor e Resident Evil Requiem, que promovem violência extrema –, coloca a dor no centro. Perez aponta para uma mistura de individualismo beligerante e descontrole emocional, egoísmo sádico e crime, elevando o conceito de “Mal-estar na cultura” de Freud a outro patamar. A diferença crucial, agora, é que a emoção predominante não é mais a culpa ou a infelicidade do passado, mas o ressentimento, o desespero e a angústia.
O Reflexo da Dor na Cultura Pop
A cultura pop global reflete vividamente essa melancolia. A revista Billboard revela que cerca de 25% das canções que lideram os rankings globais mais recentes fazem referências explícitas ao desespero, melancolia e angústia. Artistas indicados ao Grammy, como Billie Eilish, Olivia Dean e Bad Bunny, compartilham esse estado emocional sofrido e depressivo. No Brasil, a “sofrência” consolida-se como o subgênero musical mais ouvido, evidenciando uma piora geral dos afetos, especialmente entre os jovens.
Esteticamente, a prevalência de signos melancólicos é notória: cores sombrias, a estética “spleen” (tédio) e “tired” (caracterizada por olheiras leves, o “olhar CLT”), e a onda “Delulu” (delírio) que evolui para “Solulu” (a solução é o delírio), uma forma de descolamento da realidade como resposta possível. A revalorização de obras como a gravura “Melancolia I” de Dürer em diversos produtos de consumo reforça a simbologia do sofrimento. Embora existam contrapontos efêmeros como o balletcore ou o cottagecore, a densidade e transversalidade do “zeitgeist da dor” se impõem, simbolizando um sofrimento sofrido, ignorado ou impingido.
Algoritmos e a Espiral do Sofrimento
Para agravar a situação, as lógicas algorítmicas das plataformas digitais funcionam exacerbando a semelhança, reforçando correlações e aniquilando qualquer signo que possa tensionar ou oferecer perspectivas expressivas diferentes. Essa dinâmica cria uma espécie de eco-câmara de sentimentos negativos, onde o desespero se retroalimenta.
Até mesmo ícones da cultura de consumo são afetados. O urso polar, mascote da Coca-Cola, antes símbolo de graciosidade, surge deprimido e em crise existencial em uma recente propaganda da Pepsi, lançada no intervalo do Super Bowl 2026. Mesmo com humor, a imagem do urso em sofrimento encapsula a disseminação da angústia para além das fronteiras humanas, tornando-se um símbolo estético do nosso tempo.
Em Busca de um Futuro de Paz
Este percurso analítico dos signos contemporâneos revela a insuportável impossibilidade de vislumbrar um futuro, as incertezas quanto a dias melhores e o impedimento do sonho. Diante deste cenário, a professora Clotilde Perez sugere que o único caminho viável reside na construção do comum, da partilha e da cultura da paz, não apenas para uma elite, mas para a ampla maioria da sociedade.
Fonte: jornal.usp.br
