Reitor da USP, Aluisio Segurado, Afirma que Negociação Exige Consenso, Não Imposição, e Detalha Investimento de R$ 460 Milhões na Permanência Estudantil em Meio à Ocupação da Reitoria
Em entrevista, o reitor condena a invasão do prédio da Reitoria, esclarece o uso do orçamento milionário da Universidade e os impasses nas reivindicações estudantis, reforçando o compromisso institucional com a vida democrática e o patrimônio público.
O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Aluisio Segurado, reiterou que as negociações devem ser pautadas pelo consenso entre as partes, e não pela imposição de demandas. A declaração foi feita em meio à ocupação do prédio da Reitoria por um grupo de manifestantes, que, segundo Segurado, impede o avanço de grupos de trabalho já estabelecidos para discutir soluções para as reivindicações estudantis. O reitor classificou a invasão como um “ato de violência e agressão a um patrimônio público”, incompatível com a vida democrática e acadêmica.
A Invasão da Reitoria: “Ato de Violência e Agressão”
Aluisio Segurado descreveu a invasão, ocorrida em 7 de maio, como um evento que ultrapassa o direito legítimo de manifestação. Houve a derrubada do portão principal e o arrombamento das portas de vidro do hall de entrada da Reitoria, impedindo o trabalho de diversos servidores e as atividades essenciais de Pró-Reitorias e órgãos da Administração Central. “A Universidade está sofrendo prejuízos com a interrupção de várias de suas atividades essenciais, tanto administrativas quanto acadêmicas”, afirmou.
O reitor enfatizou que “atos de violência e danos ao patrimônio público, como os observados, com invasão do prédio, derrubada de grades e arrombamento de portas de vidro, são incompatíveis com a vida democrática”. Ele criticou a presença de estudantes mascarados e encapuzados, ressaltando que tal comportamento não é compatível com a vida acadêmica e não será tolerado como uma manifestação livre do direito de expressão. A ação suscitou moções de repúdio de quase a totalidade das Unidades da USP.
Diante da invasão, a guarda universitária tentou a contenção e, não sendo possível, a Polícia Militar foi acionada para cumprir seu protocolo de contenção, restringindo os manifestantes ao hall de entrada. O objetivo da Reitoria é que a PM auxilie na mediação para a desocupação do espaço, garantindo a segurança de todos e evitando maiores danos ao patrimônio, para que as atividades possam ser retomadas rapidamente.
Sobre a extensão do movimento, Segurado informou que a paralisação é parcial em algumas unidades do campus do Butantã, no campus USP Leste e na área da saúde (Pinheiros), além de São Carlos. Nos demais campi (Lorena, Bauru, Piracicaba, Pirassununga e Ribeirão Preto), as atividades seguem normais.
O Limite da Negociação: Consenso Versus Imposição
Desde 14 de abril, a Reitoria realizou mais de 20 horas de negociações com 25 representantes estudantis, debatendo uma série de demandas. Essas foram organizadas em três categorias:
- Demandas Atendidas: Questões estudantis consideradas justas e passíveis de equacionamento rápido, muitas já encaminhadas pela nova gestão reitoral.
- Demandas em Grupos de Trabalho (GTs): Reivindicações pertinentes que exigem estudos, avaliações orçamentárias ou articulação com órgãos colegiados. Sete GTs foram criados, com representação estudantil, mas a ocupação atual impede seu funcionamento.
- Demandas Não Pertinentes ou Inviáveis: Pontos que a Reitoria não considera passíveis de atendimento.
Entre as demandas inviáveis, o reitor destacou a reivindicação de aumento dos auxílios de permanência estudantil. A USP possui o maior programa de apoio à permanência estudantil do Brasil, investindo mais de R$ 460 milhões por ano. Os valores dos auxílios vêm sendo reajustados anualmente, e para este ano, a previsão orçamentária já contemplava R$ 885. Após estudo apresentado pelos estudantes, a Reitoria corrigiu o valor para R$ 912, baseado no IPC-Fipe, atendendo à reivindicação inicial.
No entanto, os estudantes passaram a exigir que o auxílio fosse elevado ao valor de um salário mínimo paulista, o que “implicaria praticamente dobrar o valor atualmente ofertado, o que é absolutamente incompatível com o orçamento da Universidade”, explicou Segurado. Ele reiterou que essa reivindicação é impossível de ser atendida, e que a negociação, para os estudantes, parece só se encerrar com o atendimento integral de todas as suas demandas.
O reitor também mencionou a proposta estudantil de eliminar exigências de frequência mínima e aproveitamento acadêmico para a manutenção do auxílio. “A proposta de aumentar o valor do auxílio e, ao mesmo tempo, eliminar qualquer critério de engajamento acadêmico é algo que eu não consigo compreender e que toda a equipe da Reitoria considera inadmissível”, afirmou.
Esclarecendo o Orçamento: R$ 10 Bilhões e a Missão da USP
Questionado sobre a alegação estudantil de que a USP teria R$ 10 bilhões em caixa para elevar o auxílio, Aluisio Segurado esclareceu que o orçamento da Universidade, concedido pela Assembleia Legislativa, possui uma enorme responsabilidade pública e destina-se a cumprir integralmente sua missão institucional. Essa missão vai muito além dos programas de permanência estudantil, incluindo o pagamento de docentes e técnico-administrativos, a realização de projetos de pesquisa de relevância nacional, e programas de extensão e serviços à população.
“É importante que os estudantes compreendam que o orçamento da instituição precisa atender ao conjunto da missão universitária, e não apenas às demandas estudantis”, pontuou o reitor. Ele destacou que o investimento em permanência estudantil, com mais de R$ 460 milhões anuais, é “o dobro do valor total que está projetado para o pagamento das gratificações de todos os servidores e docentes da Universidade”, referindo-se à Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace), que será implementada no próximo ano.
Qualidade de Vida Estudantil: Alimentação e Moradia
Em relação à qualidade da alimentação nos bandejões, o reitor assegurou que a alimentação saudável é prioridade. Todos os restaurantes seguem protocolos rigorosos, com monitoramento de temperatura, coleta de material microbiológico e fiscalização de nutricionistas. A Vigilância Sanitária foi acionada e seus laudos não identificaram inconformidades sanitárias. A USP também ampliou o número de refeições, oferecendo café da manhã, almoço e jantar de segunda a sábado em alguns restaurantes.
No Conjunto Residencial da USP (Crusp), um grupo de trabalho já atuava desde janeiro em questões de manutenção predial, reforma de espaços, ampliação de internet e melhorias nos elevadores. Durante as negociações, solicitações adicionais, como a instalação de filtros de água, foram incorporadas e estão sendo encaminhadas.
Por fim, sobre o risco de perda do semestre, Segurado afirmou que o calendário letivo ainda permite adequações curriculares, desde que as atividades acadêmicas sejam retomadas rapidamente. “Quanto mais a paralisação se prolongar, mais difícil será garantir a carga horária necessária”, alertou, indicando que o tempo para evitar prejuízos acadêmicos está se esgotando.
Fonte: jornal.usp.br
