O mês de junho apresentou um regime de chuvas e temperaturas bastante heterogêneo no Brasil, influenciando diretamente o desenvolvimento e a colheita das principais culturas agrícolas do país, como milho, soja, arroz e algodão. O último boletim do Sistema TempoCampo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, detalha como as condições climáticas variaram regionalmente e impactaram a produção.
Condições Climáticas em Junho: Chuvas e Temperaturas
Em junho, os maiores volumes de chuvas, que chegaram a 240 mm, concentraram-se na região Norte, especialmente em áreas do Amazonas, Acre, Roraima, Amapá e norte do Pará. No Nordeste, as precipitações foram mais constantes na faixa litorânea e na porção norte, enquanto o interior registrou menores acumulados. A consolidação do período seco foi evidente no Centro-Oeste, Sudeste e em grande parte do interior nordestino, com volumes inferiores a 60 mm. A região Sul teve uma distribuição heterogênea, com maiores volumes no Rio Grande do Sul e em parte de Santa Catarina, e acumulados de baixos a moderados no Paraná.
As temperaturas máximas permaneceram elevadas em boa parte do território nacional. Valores entre 29ºC e 31ºC atingiram o Norte, Nordeste e amplas áreas do Centro-Oeste, com picos de 31°C a 35°C no interior nordestino e no Brasil central. O Sudeste registrou máximas entre 25°C e 29°C, mais elevadas no norte de Minas Gerais. O Sul apresentou condições mais amenas, com máximas entre 25°C e 27°C em Santa Catarina e no Paraná, e abaixo de 25°C em extensas áreas do Rio Grande do Sul.
As temperaturas mínimas, por sua vez, marcaram o avanço do inverno no centro-sul do país. O Norte teve mínimas entre 21ºC e 25ºC. No Nordeste, os termômetros ficaram entre 19ºC e 23ºC, enquanto no Centro-Oeste oscilaram entre 19°C e 21°C. O Sudeste registrou valores entre 17°C e 19°C, com mínimas mais baixas em áreas serranas e no sul. Na região Sul, as mínimas ficaram entre 15ºC e 17ºC, com registros abaixo de 15ºC no extremo sul e em maiores altitudes.
Milho: Colheita em Duas Safras
A colheita da primeira safra do milho está praticamente concluída na maioria das regiões produtoras, atingindo 95,3% da área nacional até o final de junho, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Estados como Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Minas Gerais e Pará finalizaram os trabalhos. No Rio Grande do Sul, a produtividade média estadual foi reestimada em 7.362 kg/ha. Em Santa Catarina, a safra apresentou produtividade e qualidade predominantemente boas, com destaque para o oeste e meio-oeste.
A segunda safra do milho (safrinha) encontra-se em fase de maturação e colheita, com 18,8% da área nacional colhida até 29 de junho. Em Mato Grosso, a colheita avançou para 32,4% da área, mesmo com precipitações em algumas regiões. No Paraná, as operações ainda eram incipientes (5% colhidos), mas 79% das lavouras estavam em boas condições, com impactos de geadas considerados localizados. Em Mato Grosso do Sul, as chuvas beneficiaram lavouras tardias, enquanto em Goiás e Minas Gerais, a maior umidade dos grãos e as condições meteorológicas restringiram temporariamente o avanço das operações. Santa Catarina, por sua vez, registrou uma redução de 28,5% na área da segunda safra, com a produção total devendo recuar cerca de 19% devido à menor área e perdas pela estiagem de março.
Soja e Arroz: Colheitas Concluídas com Desafios
A colheita da soja está encerrada nas principais regiões produtoras. Em Mato Grosso, a conclusão foi registrada, e a estimativa para o ciclo 2026/27 aponta para 13,05 milhões de hectares. No Rio Grande do Sul, a produtividade média estadual foi reavaliada em 2.707 kg/ha, um resultado 14,8% inferior ao projetado inicialmente, devido à elevada variabilidade espacial das chuvas. Em Santa Catarina, a produção total da safra 2025/26 é estimada em 3,09 milhões de toneladas, representando uma redução de 5,2% em relação ao ciclo anterior, reflexo de menores rendimentos.
A colheita do arroz também está praticamente concluída no país. A produção nacional é estimada em aproximadamente 11,1 milhões de toneladas, 13,2% inferior à safra anterior, conforme a Conab. Em Santa Catarina, a colheita foi encerrada com uma produção de 1,26 milhão de toneladas, mas o cenário de elevada disponibilidade interna continua pressionando o mercado, resultando em preços menos remuneradores para o produtor.
Algodão: Início da Colheita e Perspectivas
A colheita do algodão encontra-se em estágio inicial nas principais regiões produtoras, com 3,8% da área nacional colhida até 29 de junho. Em Mato Grosso, os trabalhos avançam gradualmente e devem ganhar intensidade nas próximas semanas. Na Bahia, a colheita ocorre de forma lenta, e o prolongamento do ciclo pode favorecer a qualidade da fibra e o desempenho produtivo. Em Mato Grosso do Sul, as chuvas interromperam temporariamente as operações de desfolha em algumas áreas, mas contribuíram para a manutenção da umidade no solo e para a formação de maçãs. Em Goiás, as precipitações também limitaram o ritmo da colheita, enquanto Minas Gerais mantém a expectativa de boas produtividades e qualidade da fibra.
Fonte: jornal.usp.br
