O Brasil alcançou, em 2025, um marco histórico na saúde pública ao realizar mais de 31 mil transplantes, o maior número já registrado no País. Entre os procedimentos, o transplante de córnea liderou as estatísticas, com mais de 17 mil cirurgias. Os números refletem a recuperação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) após os impactos da pandemia de covid-19 e os investimentos realizados para ampliar a captação de órgãos, fortalecer equipes e aprimorar a logística. No entanto, apesar do avanço, velhos problemas ainda persistem e limitam o acesso a esses procedimentos vitais.
A Retomada Pós-Pandemia
A pandemia de covid-19 provocou uma interrupção quase completa dos transplantes de córnea no País, especialmente em 2020. “Nos anos da pandemia, principalmente em 2020, o número de doações, e consequentemente de transplantes de córnea, foi reduzido a quase zero. Havia o desconhecimento inicial sobre a possibilidade de transmissão da covid-19 para pacientes receptores e também para as equipes de saúde”, explica Eduardo Melani Rocha, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e líder do Núcleo de Pesquisa em Fisiopatologia Ocular.
A recuperação foi gradual e exigiu um grande esforço conjunto das equipes médicas e dos gestores públicos. “A fila também aumentou por causa do período parado. Houve demanda reprimida, aumento natural da demanda e um esforço para responder a esses problemas, o que acabou resultando nesse bom desempenho observado em 2025”, complementa Rocha.
Tecnologia e a Resiliência do Sistema de Transplantes
Além da reorganização do sistema, o avanço tecnológico contribuiu significativamente para ampliar o número de procedimentos. Novas técnicas cirúrgicas permitiram tornar o transplante mais seguro e menos invasivo. “A tecnologia que permite fazer um transplante apenas da camada da córnea que está doente abreviou o tempo de cirurgia e também a recuperação pós-operatória. Isso encorajou médicos e pacientes a recorrerem a essa forma de tratamento para recuperar a visão”, aponta Rocha.
Marcelo Bonvento, médico intensivista e coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP-USP), destaca a capacidade de resposta do sistema público brasileiro. “O sistema brasileiro de transplantes é extremamente ativo. Ele conta com profissionais e equipes que trabalham 24 horas por dia, garantindo assistência e apoio logístico para que os transplantes aconteçam.” Bonvento ressalta que o SNT optou por manter os programas em funcionamento, ainda que minimizados, durante a pandemia, estratégia fundamental para a rápida recuperação.
O Obstáculo da Recusa Familiar
Apesar do recorde, o sistema ainda enfrenta obstáculos importantes. A recusa familiar à doação de órgãos e tecidos representa o principal desafio, com cerca de 45% das famílias negando a doação. “Essa ainda é a nossa maior limitação. Precisamos sensibilizar a população, discutir o tema e mostrar o impacto que um transplante pode ter na vida de quem está esperando”, afirma Bonvento.
O especialista reforça que o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e que conversar sobre doação ainda em vida é fundamental. “A chance de uma pessoa precisar de um transplante é cinco vezes maior do que a possibilidade de se tornar um doador. Por isso, é importante conversar com a família e deixar claro esse desejo. No momento da decisão é ela quem poderá autorizar a doação”, explica Bonvento.
Desafios de Estrutura e Logística
Eduardo Melani Rocha aponta que grandes centros urbanos ainda não possuem estrutura suficiente para a captação de córneas. Além disso, o curto intervalo entre o óbito e a retirada do tecido torna essencial que a decisão da família seja rápida. “Uma pessoa, seja criança, adulta ou idosa, independentemente da causa da morte, pode doar as córneas e recuperar a visão de pelo menos duas outras pessoas. Mas essa decisão precisa acontecer em menos de 12 horas”, alerta.
Para reduzir as filas de espera, Rocha defende investimentos em três frentes principais: ampliar o funcionamento dos bancos de olhos, melhorar a logística de transporte de córneas entre diferentes regiões e fortalecer as equipes responsáveis pela captação. “É importante capacitar e incentivar essas equipes para que haja menos rotatividade profissional e mais valorização dessa atividade.”
Fonte: jornal.usp.br
