Pré-COP na Alemanha Expõe Desafios Críticos para a Transição Agroalimentar Global: Falta de Consenso, Financiamento e Ações Concretas Marcam o Caminho para a COP31

Em junho de 2026, a cidade de Bonn, na Alemanha, sediou a reunião preparatória para a COP31, a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU, que ocorrerá em novembro na Turquia. Este encontro, crucial para pavimentar o caminho das negociações futuras, deixou evidente a complexidade e a falta de avanço em questões fundamentais, especialmente no que tange à transição dos sistemas agroalimentares globais.

O Brasil, na presidência da COP30, em 2025, lançou a ambiciosa Agenda de Ação, um plano estratégico para mobilizar diversos atores em prol da mitigação e adaptação climática. Fernanda Marrocos, doutora em Saúde Global e Sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP e presente na pré-conferência, analisou os desafios e as expectativas entre as duas COPs.

A Agenda de Ação Brasileira e Seus Instrumentos

Marrocos detalha que a Agenda de Ação brasileira introduziu os “Planos para Acelerar Soluções” (PAS), ferramentas multissetoriais desenhadas para converter compromissos climáticos em ações concretas. Dois PAS se destacam no Eixo de Transformação da Agricultura e dos Sistemas Alimentares:

  • PAS COACT: Proposto pelo Ministério do Desenvolvimento Social, busca maior coerência entre as políticas de sistemas alimentares e clima, preenchendo lacunas em instrumentos, metodologias e capacidades institucionais.
  • PAS Terra: Iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, foca na expansão da agroecologia e de sistemas agroflorestais, promovendo práticas produtivas mais resilientes e adaptadas às mudanças climáticas.

“Na prática, esses planos podem contribuir para integrar políticas hoje fragmentadas, mobilizar financiamento, fortalecer capacidades locais e ampliar experiências bem-sucedidas. Seu impacto, porém, dependerá da definição de metas claras, responsabilidades, recursos e mecanismos de monitoramento”, ressalta Fernanda Marrocos.

O Debate sobre Sistemas Agroalimentares: Divisões e Desafios

Apesar de terem ganhado visibilidade na COP30, os sistemas agroalimentares – que englobam desde a produção até o descarte de alimentos – enfrentam dificuldades para se traduzir em compromissos políticos concretos. Em Bonn, o progresso foi limitado. O Grupo de Trabalho de Sharm El-Sheikh sobre Agricultura e Segurança Alimentar, principal fórum de negociação sobre o tema, cujo mandato se encerra na COP31, sublinhou a escassez de financiamento, assistência técnica, tecnologia e capacidade institucional. Contudo, os países não conseguiram chegar a um consenso sobre os relatórios dos workshops realizados nos últimos dois anos.

A principal divergência reside na abordagem: enquanto países do Sul Global defendem um foco na produção agrícola, na segurança alimentar e no sustento de comunidades rurais, nações desenvolvidas propõem uma visão mais ampla, abrangendo todo o sistema agroalimentar, incluindo o consumo e o desperdício. A decisão sobre o futuro do grupo foi adiada para a reunião em Antalya.

Iniciativas Promissoras Fora das Negociações Formais

Mesmo com o impasse nas negociações formais, Bonn testemunhou avanços em outras frentes. A própria organização das conferências começou a incorporar critérios de alimentação saudável, compra local, redução do desperdício e transparência. Os PAS COACT e Terra ganharam destaque, assim como a Iniciativa Nexo Turquesa, que será lançada na COP31, visando a aproximar sistemas alimentares, gestão da água e adaptação climática.

“O desafio, em todos esses casos, é transformar iniciativas promissoras em políticas, financiamento e ações concretas que alcancem os agricultores e os territórios mais vulnerabilizados”, completa a especialista.

Fernanda Marrocos conclui que “Bonn mostrou uma falta de consenso, de financiamento e de decisões concretas”. O grande desafio para a COP31 será articular politicamente um “Mapa do Caminho para a Transição Justa e Sustentável do Sistema Agroalimentar”, espelhando o que já se discute para a transição energética. Sem isso, a ação climática será insuficiente para proteger o planeta, a saúde e o direito humano à alimentação adequada.

Fonte: jornal.usp.br

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