Por Que Escrever é Perigoso: Da Análise de Olga Tokarczuk ao Desafio Multidisciplinar do Tempo na USP

Por Que Escrever é Perigoso: Da Análise de Olga Tokarczuk ao Desafio Multidisciplinar do Tempo na USP

Um professor da Escola Politécnica da USP explora a ousadia de transpor fronteiras do saber, conectando a literatura da Nobel polonesa Olga Tokarczuk com o diálogo sobre cronobiologia, física e a própria natureza do tempo, em um fórum que reúne mentes de diversas áreas.

A escrita, para a Nobel de Literatura Olga Tokarczuk, é uma força transformadora, quase uma entidade viva que se apodera de quem a pratica. Em sua obra “Escrever é muito perigoso: Ensaios e conferências”, a autora polonesa mergulha nas profundezas psicológicas e existenciais desse ato. Mas, além da dimensão pessoal, escrever pode ser perigoso também no campo do conhecimento, especialmente quando se busca romper as barreiras da especialização e promover a divulgação científica. É essa a reflexão de José Roberto Castilho Piqueira, professor da Escola Politécnica da USP, que compartilha sua jornada por entre disciplinas, da engenharia à biologia e à física do tempo.

A Perigosa Ousadia da Escrita Multidisciplinar

Para Piqueira, a disseminação do conhecimento é um imperativo, mesmo que isso implique o risco de ser mal interpretado por especialistas. Ele argumenta que, embora o rigor científico seja inegociável, a capacidade de tornar ideias complexas acessíveis a um público mais amplo supera a preocupação com a ‘pureza’ acadêmica. Como engenheiro especializado em dinâmica não linear, o professor sente-se atraído por outras áreas, como a Biologia e a Física, e busca incorporar esses diálogos em seus próprios textos. Essa abordagem, contudo, é um terreno perigoso, pois o cruzamento de saberes pode ser visto como uma diluição da sofisticação técnica.

Sua incursão por temas como o tempo e a sincronização, explorados em artigos anteriores (“Sobre o tempo: Huygens, Lorde Kelvin e Curies”; “Sobre o tempo: Sacks e Wells”; “Sincronização: Huygens, Winfree e Lindsey”), abriu portas para um diálogo enriquecedor. Esses trabalhos, que retomaram a conexão entre cronobiologia e teoria dos sistemas dinâmicos não lineares, chamaram a atenção do colega Luiz Menna-Barreto, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), que o convidou para participar do Cronoforum, um seminário semanal com predominância de participantes da área biológica.

Pontes entre Saberes: O Cronoforum e o Nobel de Física

O encontro no Cronoforum, embora arriscado pela diferença de linguagens e formações, revelou-se um espaço de convergência multidisciplinar. Esse fenômeno, que valoriza a interligação entre diversos saberes, está em ascensão nos principais centros de ciência globais, revertendo uma tendência de hiperespecialização. Um exemplo notório dessa valorização é o Prêmio Nobel de Física de 2021, concedido a Giorgio Parisi, Syukuro Manabe e Klaus Hasselmann. Eles foram reconhecidos por suas contribuições para a compreensão de sistemas físicos complexos, utilizando modelos matemáticos para relacionar as mudanças climáticas com a responsabilidade humana, combinando processos aleatórios com modelos climáticos.

No Cronoforum, a discussão avançou para questões que, à primeira vista, parecem pertencer à ficção científica. A capacidade de acelerar ou retardar o fluxo do tempo, embora não factível na realidade humana, pode ser simulada em câmeras e processos computacionais, permitindo o estudo de fenômenos em escalas temporais que fogem à nossa percepção. Essa é uma questão crucial para a Biologia, devido à vasta diversidade de escalas temporais de seus objetos de estudo. A partir desse ponto, aguçar a imaginação para pensar em viagens no tempo é um passo ousado, aumentando o perigo de críticas a afirmações que podem parecer ingênuas.

Desvendando o Tempo: Da Biologia à Relatividade

Intrigado, Piqueira buscou aprofundar-se no tema do tempo sem recorrer às complexas equações da Teoria da Relatividade Geral. Ele se recordou de “Maxwell Demon”, um livro de Hans Christian von Baeyer, presente de seu irmão físico, Thales Trigo. A obra discute a entropia e sua relação com a “seta do tempo”. Essa tentativa de conectar o tempo, uma grandeza aparentemente abstrata, com uma medida mais tangível tem sido bem-sucedida em explicar uma vasta gama de fenômenos físicos em diversas escalas espaciais. É por meio dessa explicação que se compreende a impossibilidade de viagens ao passado: o retorno implicaria uma diminuição da entropia do Universo, que, segundo as leis da física, está sempre em constante aumento.

No entanto, o capítulo “Here and Now” de Von Baeyer apresenta um desafio ainda maior. Desde a Grécia Antiga, o movimento dos corpos era concebido como uma mudança de posição ao longo do tempo, tratando espaço e tempo como entidades distintas. Essa visão, intuitiva e enraizada em nossa percepção, foi revolucionada no século XX.

O Tempo como Mistério e Desafio Científico

Em 1909, Hermann Minkowski, baseando-se na Teoria da Relatividade Restrita de Albert Einstein, propôs uma geometria quadridimensional que unifica as coordenadas espaciais e temporais. Seis anos depois, em 1915, Einstein publicou a Teoria da Relatividade Geral, transformando a maneira de observar os fenômenos físicos ao tratá-los como deformações no “espaço-tempo”. Essa teoria unificou as coordenadas e elevou o tempo a uma grandeza semelhante às espaciais, tornando-o indistinguível das outras dimensões envolvidas.

Diante dessas revelações, surgem perguntas que, embora pareçam infantis, carregam um profundo peso filosófico e científico: Como o passado se distingue do futuro? O tempo flui sempre em um único sentido, como uma seta? O passado, embora presente em nossa consciência, é materialmente inacessível? Escrever sobre o tempo, com suas múltiplas facetas e implicações, é, de fato, uma empreitada perigosa, mas igualmente fascinante e essencial para a contínua busca humana por conhecimento.

Fonte: jornal.usp.br

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