Ponte Sonora: Coral Guarani Mbya e Orquestra Almai Lançam ‘Yy Jojou’, Unindo Tradições Milenares em Álbum Disponível no Spotify e YouTube

Ponte Sonora: Coral Guarani Mbya e Orquestra Almai Lançam ‘Yy Jojou’, Unindo Tradições Milenares em Álbum Disponível no Spotify e YouTube

O projeto “Encontro das Águas” redefine o diálogo musical, celebrando a cultura indígena e a colaboração artística respeitosa em São Paulo.

São Paulo, SP – Uma fusão inédita de sonoridades ancestrais e orquestrais ganha vida com o lançamento do álbum “Yy Jojou – Encontro das Águas”, resultado da colaboração entre o Coral Amba Wera, do povo Guarani Mbya da Aldeia Tekoa Pyau, no Território Indígena do Jaraguá, e a Orquestra Almai. O trabalho, que reúne oito composições originais baseadas em cânticos indígenas, foi disponibilizado nas plataformas digitais Spotify e YouTube no último dia 10 de maio, e apresentado na Biblioteca Mário de Andrade em 14 de maio.

Um Diálogo Musical Inovador e Respeitoso

Dirigido pelos compositores Anselmo Mancini e José Calixto, ambos graduados pela USP e responsáveis pela orquestração, o álbum “Yy Jojou” se destaca pela sua abordagem singular. Mancini, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, salienta que a intenção foi preservar a autoria do povo Guarani. “Desde o início a nossa ideia era manter a autoria com o povo Guarani”, explica. Ele diferencia essa metodologia da de outros compositores, como Heitor Villa-Lobos, que incorporava cânticos indígenas em suas próprias composições de caráter nacionalista. “Nós não pegamos a música deles para a usarmos como inspiração. O que fizemos foi nos unirmos para criar algo diferente”, afirma Mancini, enfatizando a responsabilidade contemporânea de abordar a música indígena com um novo olhar.

José Calixto, doutor em etnomusicologia pela ECA, descreve a iniciativa como uma aproximação entre duas “tradições de música clássica”, por serem milenares. De um lado, a cultura oral Guarani, com sua técnica de canto rica em ritualística e espiritualidade; do outro, a cultura musical ocidental, organizada por partituras. A inspiração para o título “Yy Jojou”, que significa “encontro das águas” em guarani, veio de uma frase do mestre quilombola Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo): “Quando um rio encontra outro rio, ele não deixa de ser rio; ele passa a ser um rio maior”.

Fortalecimento Cultural e Desafios Superados

Para Maurício Biguai, diretor do Coral Amba Wera, a produção do álbum é fundamental para as estratégias de visibilidade da cultura Guarani desenvolvidas pela aldeia Mbya. “O objetivo do coral é fortalecer nossa cultura e não deixar esquecer nossa língua. Não vamos desistir disso”, declara Biguai. Ele ressalta que “Yy Jojou” cumpre esse propósito ao difundir os cânticos ritualísticos de sua aldeia, que visam o “fortalecimento do espírito”. “É quase como dizer: ‘Vamos caminhar juntos’”, informa.

O processo de criação do álbum exigiu adaptações e aprendizados de ambos os lados. “Nos primeiros encontros, ambos os lados tiveram que aprender algo novo tecnicamente. Tiveram que se adaptar um ao outro”, conta Mancini. Nos ensaios, a orquestra priorizou a escuta: “Os músicos da orquestra chegaram, se posicionaram e ficaram esperando o comando do maestro. Nós então dissemos: ‘Gente, guarda o violino, o cello e tudo o mais, ninguém vai tocar. Vamos ouvir a música guarani’”. Da parte do Coral Amba Wera, as adaptações também foram significativas. “Foi muito difícil, um desafio muito grande para nós. A maior diferença foi cantar junto do violino”, relembra Biguai.

Amizades e Sonhos Realizados em Melodia

Apesar dos obstáculos iniciais, a colaboração gerou frutos além da música, resultando em amizades, visitas à aldeia Guarani Mbya e trocas de presentes entre os integrantes dos grupos. A origem do projeto remonta a três anos, quando a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) procurou José Calixto para intermediar uma parceria com o Coral Amba Wera, dada sua pesquisa sobre a música Guarani Mbya. Após um concerto em abril de 2023 entre a Osusp e o coral, Maurício Biguai expressou a Calixto o desejo de gravar um álbum com uma orquestra, sonho que agora se concretiza com a Orquestra Almai.

“Para nós era um sonho”, afirma Biguai. “Nós queríamos gravar um disco para homenagear nosso pajé, Karai Poty, José Fernandes, que foi quem criou o coral. Uma das músicas leva seu nome, em homenagem a ele. Ele se foi há três anos.” O álbum “Yy Jojou – Encontro das Águas” está disponível gratuitamente em plataformas como Spotify e YouTube, oferecendo ao público uma imersão nesta rica experiência sonora. Para quem deseja vivenciar essa união musical ao vivo, o coral e a orquestra farão um concerto no dia 19 de abril, às 17 horas, no Teatro Baccarelli (Estrada das Lágrimas, 2.317, Heliópolis, zona sul de São Paulo). Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos no site do Instituto Baccarelli.

Fonte: jornal.usp.br

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