Gromo: O Fogo da Paixão e o Sabor da Comunidade
Na pequena Gromo, no Val Seriana, a Páscoa tem um aroma inconfundível: o do fogo. Dias antes da Sexta-feira Santa, a comunidade prepara os “bocconi”, pedaços de tecido embebidos em gasolina que, quando acesos em pequenas cruzes, iluminam o vilarejo com uma luz vibrante e instável. Conchas de caracol transformadas em lamparinas adicionam um toque de ritualidade concreta. A procissão do Cristo Morto, carregado por homens de trinta e três anos, simboliza a renovação de um pacto entre gerações. A celebração culmina com a “maiassa”, um prato agridoce de farinha de milho, alho-poró, figos e maçãs, representando a partilha comunitária.
Ripatransone: O Cavalo de Fogo Entre o Sagrado e a Vertigem
Em Ripatransone, a Semana Santa se desenrola em etapas. Após as procissões contidas da Madonna Addolorata e do Cristo Morto, o Domingo in Albis traz uma explosão de energia com o “cavallo di fuoco”. Essa estrutura pirotécnica cruza o vilarejo em meio a fogos e música, uma tradição reconhecida como Patrimônio da Itália, que demonstra a união entre o sagrado e o terreno. O ciclo se encerra à mesa com a “strozzosa”, um doce ideal para mergulhar no café.
Ceriana: Sons Ancestrais e Fé Coletiva
Em Ceriana, a Páscoa é uma experiência auditiva. Desde o Domingo de Ramos, sons rituais ecoam pelas ruas: cornos de casca de castanheira e tábuas de madeira batidas criam uma atmosfera única, acompanhados pelos cantos penitenciais das confrarias. Na Sexta-feira Santa, as procissões com tochas e estandartes, intercaladas por cantos de Miserere e Laudi, culminam na emocionante procissão dos “anjinhos”, com crianças carregando os símbolos da Paixão. Os tradicionais frisciöi, bolinhos fritos, marcam o fim das celebrações.
Pescocostanzo: O Tempo Lento da Devoção
A Páscoa em Pescocostanzo se inicia mais cedo, com as Quarenta Horas. Entre a Quinta e o Sábado Santo, cânticos antigos de Salmos e Miserere, de origem lombarda, dominam o ambiente. A Sexta-feira Santa é marcada pela visita aos Sepulcros e pela procissão noturna do Cristo Morto e da Nossa Senhora das Dores, em um clima de tochas e silêncio. As vozes das confrarias se unem às orações das mulheres, transformando o vilarejo em um espaço suspenso. Na Páscoa, a protagonista é a “scarsella”, uma massa doce com queijos, ovos e frutas cristalizadas, símbolo do fim do jejum.
Civita: A Páscoa Arbëreshë Entre Rito e Identidade
Em Civita, a Páscoa é também linguagem. O rito bizantino da “Fjalza e Mirë” celebra a vitória da luz sobre o mal no amanhecer de domingo. Já na terça-feira de Páscoa, as Vallje, danças tradicionais em trajes típicos, narram a história do povo Arbëreshë e a figura de Scanderbeg, em uma memória em movimento. Os ovos vermelhos, as “Jova”, completam o simbolismo da renovação.
Badolato: Entre Dor Ritual e Alegria Coletiva
A Semana Santa em Badolato é uma experiência física. A Procissão dos Mistérios Dolorosos, com mais de duzentas pessoas, envolve rituais antigos e o encontro de confrarias. No domingo, a “Cumprùnta” encena o encontro entre Cristo Ressuscitado e a Virgem, com música, movimento e bandeiras, marcando a transição da tensão para a libertação. As cuzzupe, biscoitos macios com ovo cozido, encerram o ciclo com seu simbolismo de nascimento e fim do jejum.
Buccheri: A Paixão Se Torna Palavra
Em Buccheri, a Páscoa é encenada. “U Passiu Santu” é uma representação viva da Paixão, em dialeto siciliano e em versos, transmitindo oralmente identidade e ritmo coletivo. A “crotola”, um instrumento de madeira, marca o compasso da Sexta-feira Santa, transformando o vilarejo em um palco onde todos participam. A “cuddura cu l’uovo”, massa rústica com ovos cozidos e formas simbólicas, finaliza a celebração.
O Sentido da Tradição Viva
Esses vilarejos italianos não apenas encenam a tradição, eles a vivem. Para quem visita, a percepção é clara: o visitante é um espectador temporário em uma comunidade que mantém seus rituais e identidade intactos. Em um mundo onde tudo parece ser consumido rapidamente, esses lugares oferecem a oportunidade de uma imersão autêntica, exigindo que o viajante escolha entre permanecer na superfície ou entrar de verdade na essência da cultura local.
Fonte: jornalitalia.com
